Colunas


Atitude assoreada


O Brasil se gaba de muitas coisas. De algumas, sem razão alguma, como é o fato de ter uma das maiores cidades do mundo. Longe de ser vantagem, é quase calamidade. Uma aglomeração como São Paulo vai na contramão da qualidade de vida, com a impermeabilização das ruas, a ocupação das encostas, a degradação ambiental causada pela concentração de gases tóxicos etc. Entulhar 70% da população do estado em áreas urbanas traz mais mal do que bem. Mas o Brasil se gaba de outras coisas, e em várias têm razão de orgulho. Por exemplo, dos nossos tesouros subterrâneos. Entre eles, a água. Sim, a água, doce, pura e cristalina, guardada embaixo de nós, a nos unir com Argentina, Paraguai e Uruguai, muito mais do que o quase falido Mercosul: o aqüífero Guarani. E, a se confirmar as prospecções, podemos ser donos da maior reserva de água doce do planeta, a Reserva Alter do Chão, na Amazônia, com cerca de 86 mil km³ de água potável, suficiente para abastecer cem vezes toda a população mundial.

Mas não basta ter água. Precisamos cuidar dela. Uma das metas do milênio, acordo assinado em 2000 por 191 países, é garantir a sustentabilidade ambiental, com o argumento que deveria falar por si: mais de um bilhão de pessoas ainda não têm acesso a água potável. A qualidade da água influencia na saúde, por causa do saneamento básico, da preservação das espécies, da qualidade do ar e outros benefícios.

A água que aflora à superfície, boa de beber com as mãos em concha, já não se vê mais. E até os lagos, mercê de nosso descuido e nosso desprezo, vai se perdendo em areia e lodo, virando brejos. O lago do Ibirapuera, por exemplo, cartão postal de nossa metrópole, pode ser o cartão de epitáfio do nosso meio ambiente. Da profundidade original de 2,5m, hoje não tem mais que uma lâmina de 30cm (película quase um décimo da original). Pensou-se em muita coisa para prevenir a degradação do lago. Lembram-se de um prefeito que colocou cisnes para, com seu nado, oxigenar a água? Lembram-se, que pela mesma razão, foi instalado equipamento para promover as águas dançantes? Pois é. Esqueceram-se de que, além disso, era necessário impedir o assoreamento do leito dos lagos; denúncia recente dá conta de que, no – não tão - fundo do lago do Ibirapuera, acumulam-se mais de 80 mil metros cúbicos de detritos, lodo e areia. Esqueceram-se, também, de educar o povo para não jogar lixo naquelas águas (ou em sua proximidade, porque podem ser levados pelo vento e pela chuva). A mesma chuva que, transformada em tempestade, inundou o lago do Parque da Aclimação e praticamente acabou com ele, revelou que o local estava infectado de esgoto doméstico. Pois é. Faltou educação.

O próprio governo precisa estar ambientalmente mais educado. Lei para isso existe. A Política Nacional do Meio Ambiente é definida pela lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Cumprir a lei significa promover coleta seletiva de lixo, fazer campanhas de esclarecimentos, trazer as crianças para ajudar a disseminar a ideia de que, para desassorear rios e lagos, é preciso desassorear as mentes de obstruções provocadas pela preguiça, pelo despreparo e às vezes pela incompetência.

*Ricardo Castilho - é Diretor-Presidente da Escola Paulista de Direito (EPD); Pós-doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina; Doutor em Direito pela PUC/SP; Professor e Conferencista no Brasil e no Exterior. Autor de diversas obras jurídica editadas pela Saraiva.


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

Você é favorável à via que vai ligar a beira-mar da Brava a Osvaldo Reis?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Em Cuba, bloqueio dos EUA e apagões pioram vida de mulheres

‘Não há dignidade de nada’

Em Cuba, bloqueio dos EUA e apagões pioram vida de mulheres

Documentos revelam tensão e conflito nas relações bilaterais

Apoio dos EUA à ditadura

Documentos revelam tensão e conflito nas relações bilaterais

Spike, o cacto: o primeiro de seu nome

CRÔNICA DE SÁBADO

Spike, o cacto: o primeiro de seu nome

Como investigações conectam a CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado

Caso Master

Como investigações conectam a CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado

Como lenda que levou Recife ao Oscar ajudou a retratar a ditadura

Perna Cabeluda

Como lenda que levou Recife ao Oscar ajudou a retratar a ditadura



Colunistas

Ideal Mente

Quando a dor diminui, mas não passa: o luto silencioso que ninguém vê

Quando a dívida tributária vira protesto em cartório

De Olho no Fisco

Quando a dívida tributária vira protesto em cartório

Filhas perdidas

Via Streaming

Filhas perdidas

Teve bafão na Câmara de Tijucas

JotaCê

Teve bafão na Câmara de Tijucas

Em SC, Zema defende mudanças estruturais

Coluna Acontece SC

Em SC, Zema defende mudanças estruturais




Blogs

Coragem de Florescer

Papo Terapêutico

Coragem de Florescer

Ju Pavan de zóio na região sul

Blog do JC

Ju Pavan de zóio na região sul

Pequeno desastre doméstico - Haikai 15

VersoLuz

Pequeno desastre doméstico - Haikai 15

Cuidando do excesso de glicose para viver com saúde!

Espaço Saúde

Cuidando do excesso de glicose para viver com saúde!

Chef Gavin

Blog da Jackie

Chef Gavin



Podcasts

Depois da chuvarada, ciclone chega ao litoral

Depois da chuvarada, ciclone chega ao litoral

Publicado 07/04/2026 20:26





Jornal Diarinho ©2026 - Todos os direitos reservados.