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Pedidos de indulgência


A natureza é sábia. A boa notícia é que contamos com o equilíbrio natural de forças; caso contrário, os pedidos de indulgência da humanidade já teriam excedido qualquer limite devido ao grau dos pecados, cumulativos e flamejantes.

Sabedoria, deste modo, não se pode confundir com acúmulo desorganizado de conhecimento ou mau uso dos saberes, como o emprego de aviões para combate bélico ou de microcâmeras para quebrar privacidades. Inventores bem-intencionados se decepcionariam. A capacidade criadora do homem converte-se em desejos destrutivos na menor sombra de desequilíbrio.

O avanço da técnica culminou na transformação dos humanos em seres manipuláveis e vulneráveis. Sonha-se com robôs que nos farão de tudo. Os meios de comunicação, em seu turno, também condicionam mentes, inibem a reflexão, moldam identidades.

Sem espaço nos presídios chilenos, o presidente Sebastián Piñera pede um indulto à Igreja Católica para que milhares de delinquentes comuns e violadores de direitos humanos deixem de amontoar-se naqueles ambientes de reclusão.

A lógica de exclusão de ineptos do sistema mercantil através da construção desenfreada de cárceres (alguns até com televisão por assinatura e grelha para churrasco, cujas imagens são mais nobres que muitas favelas tupinicas) repete-se noutros países latino-americanos. Autorizou-se há pouco a construção de 48 presídios somente no estado de São Paulo, um dos mais industrializados do Brasil. A marginalização caminha junto com a industrialização?

Por sua vez, a justiça argentina tem julgado crimes cometidos por ex-ditadores militares, que assassinaram, perseguiram e torturaram opositores. Estima-se que 30 mil pessoas desapareceram na Argentina naquele período.

Não há justiça terrena que restitua os laços familiares de milhares de exilados, que se trasladaram a países como México e França, nem dinheiro que devolva a esperança de famílias que a ditadura desestruturou e expatriou.

O motor nebuloso da história, porém, retifica-se em algumas circunstâncias e abre precedentes (modernos, pós-modernos ou ultra-modernos?) para a volta dos golpes militares e dos governos impostos em nações até então tidas por soberanas. Por menos angelical que tenha sido ou se apresente Manuel Zelaya, Honduras assistiu à deposição de seu presidente legítimo em 28 de junho de 2009. Um ano depois, o povo manifesta-se em apoio a uma institucionalidade democrática tão prezada, mas que lhes foi arrebatada.

Já que é impossível o consenso, que as maiorias decidam sobre o futuro das nações a que pertencem! Nem Deus nem o acaso aguentam mais que se lhes atribuam tantas tarefas!

A despeito da podridão da máquina estatal tupinica, Dilma Rousseff superou José Serra nas intenções de voto pela corrida presidencial. O que mais chama atenção nas eleições dos tempos atuais (ainda não a “Nova Era” para a infelicidade dos esperançosos) é o deslocamento da luta política das ruas e partidos políticos para a televisão. Sintoma da nova época ou loucura?

Os candidatos principais disputam tempo de propaganda eleitoral na televisão através das coligações entre partidos políticos. Trinta segundos a mais ou a menos podem fazer a diferença na aprovação de algum deles. Projetos para o país e ideias para o mundo já pouco se discutem, visto que o mais importante é a imagem publicitária e a ilusão de que os eleitores participam dos debates. A tal da democracia (representativa) em nova arena.

Entrementes, discutem-se grandes propostas pelo presidente equatoriano Rafael Correa, que incentiva o uso do sistema Único de Compensação Regional (SUCRE) no comércio entre países de América Latina e Caribe. O mecanismo de trocas virtuais visa reduzir o uso de moedas de outras regiões, como o dólar, e a atribuir maior autonomia econômica aos países signatários.

Se ao menos pudéssemos visualizar o caminho de compreensão e paz que podemos escolher dentre outros tão funestos, mereceríamos maiores indulgências da natureza.

Mestre em Estudos Latino-americanos

https://www.brunoperon.com.br


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