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Mania de perseguição?


Eu me pergunto se é só comigo que certas coisas acontecem ou se é apenas impressão, um delírio persecutório. Sim, porque quando as mesmas situações se repetem-repetem-repetem, é de se meditar se, de alguma maneira, não estou contribuindo para a sua onipresença em minha vida.

Por exemplo: comigo sempre acontece de estar dirigindo e ser quase atingida por um pedestre com ideações suicidas, que se atira subitamente no meio da rua, naquela corridinha arrastada de quem acha que vai dar tempo de atravessar mesmo que venha um carro – no caso, o meu – a cinco metros de distância e ele, o pedestre, não seja nenhum maratonista. Nessas horas, invariavelmente a pessoa sabe que fez bobagem; tanto sabe que já atravessa a rua com um sorrisinho amarelo no rosto, um tímido pedido de desculpas antecipado e preventivo.

Sinceramente, acho que é a parte da risadinha que me irrita mais.

Também costuma me acontecer de as pessoas falarem de mim na minha frente como se eu não estivesse presente ou ouvindo. Não sei no que essa gente pensa nessas horas; talvez que eu seja boba ou quem sabe surda – o que, em qualquer caso, produz o mesmo resultado: vou da incredulidade à raiva em cinco segundos, velocidade de cruzeiro.

Há também a circunstância de eu ser solenemente ignorada como se fosse transparente, e isso acontece muito em caixa de supermercado. Eu lá, sempre atrasadíssima, minutos contados no relógio, dedos tamborilando, e tendo quase sempre a sorte de cair num caixa pilotado por uma moça compenetradíssima num bate-papo animado com a colega do lado, tudo presencialmente testemunhado por mim. Eu quase sinto como se tivesse que cumprir uma penitência por estar interrompendo o recreio delas. Um dia, eu sei, ainda vou escutar desaforo pela minha ousadia de insistir em ser atendida instantaneamente.

Está certo que eu não sou nenhum domingo no parque e que não faço mesmo muito tipo para agradar a quem quer que seja. Se aparento estar de bom humor, isso é absolutamente verdade, não há exagero nem exibicionismo. No entanto, eu também jamais disfarço ou minimizo meus azedumes. Acho que as pessoas têm o direito de perceber com quem estão lidando e o que esperar de mim a cada momento. Porém, especialmente nesses dias de pé esquerdo, tudo parece mais intolerável: o trânsito, as pessoas, os telefonemas às oito horas da manhã de sábado para me oferecer um super-mega-bláster desconto na fatura do cartão de crédito, enfim, tudo isso simplesmente se torna impossível de digerir.

Eu sei, eu sei, quanta belicosidade e impaciência. É mesmo, admito, mas poucas coisas me transtornam mais do que injustiça e desrespeito. Sentir que estão me tirando para trouxa, que violaram o meu espaço, que estou sendo descaradamente desrespeitada me tira do sério. Incorporo um Seu Saraiva em dois toques: tolerância zero, ou quase isso.

Mas aí volto à pergunta original, sobre saber se eu mesmo não colaboro para que tudo isso aconteça diuturnamente. É como diz o Millôr, já citado lá em cima: “não reclama, não: quando um cara quer te fazer de idiota, é porque encontrou material.” Será?

Comentários, críticas e sugestões para daianabfranco@gmail.com


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