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O mundo ideal


Esse é o problema de crescer estimulado por promessas de recompensas e ganhos futuros, algo do tipo “se eu for uma boa menina ou um filho educado, se eu for estudioso e honesto, se eu amar muito os meus filhos e trabalhar bastante, então nada poderá dar errado e eu serei uma pessoa constantemente feliz e próspera”. Infelizmente a vida tangencia esse roteiro pré-estabelecido – quem sabe se não justamente nos limando e abrasivando, para polir a nossa alma; no entanto, sem que a gente sequer perceba, vamos nos ressentindo gradualmente por todas as vontades não satisfeitas e sonhos não realizados, acumulando pontos no programa de milhagem da amargura e decepção.

Todo ser humano que se gosta minimamente quer para si o melhor. Desde criança vem experimentando situações de perda e de alegria que pretende não repetir ou que tenciona perpetuar ao longo da vida, e já começa aí, exatamente aí, o longo planejamento do que espera de sua vida futura e do que não abrirá mão. Se tivemos uma infância difícil, de muitas privações e pouco amor, é bem possível que um dos nosso maiores desejos seja o de construir uma família unida e amantíssima, em que todos se idolatrem e se prestigiem. Se, por outro lado, o que faltou foi dinheiro, provavelmente trabalharemos obsessivamente para não reavivar a lembrança de todas as ambições não realizadas e da inveja empedernida. Porém, se tivemos afeto e conforto de sobra, nada mais óbvio do que supor a continuidade das coisas, estando certos de que seremos capazes de repetir o modelo que deu tão certo no passado.

O grande problema é não lembrar de convidar os demais personagens, aqueles que fazem a nossa figuração – filhos, pais, companheiros, colegas – a participar da peça que encenamos mentalmente. A gente quer porque quer que a vida seja de um jeito, que ande em determinados trilhos, mas as outras pessoas e as circunstâncias teimam em guiná-la para um curso diferente e oposto. Nessa queda de braço, invariavelmente quem sai perdendo somos nós mesmos.

De um modo bastante curioso, as pessoas muito cartesianas e as excessivamente sonhadoras acabam se encontrando em seu próprio infinito de insatisfações quando forçadas a encarar a realidade de que o barco não corre de acordo com os seus timões. Devanear com a vida perfeita, o marido ideal, a esposa completa, as crianças mais lindas, o trabalho mais empolgante e melhor remunerado só faz aumentar o abismo entre o delírio de um mundo ideal e o cotidiano cada vez mais desesperador e distante das nossas fantasias de glória.

É por isso que faz tempo que abandonei as fantasias; elas nunca corresponderam à realidade, pelo menos para mim. Tudo o que eu ficcionei acabou sempre ficando muito além do que a vida real proporcionou. Uma hora a gente cansa de esperançar e entende que é muito mais proveitoso e prático lidar com as coisas como elas são do que como poderiam ser, se ‘n’ variáveis se realizassem.

É mais útil e menos doloroso aceitar que a vida segue independentemente das nossas crenças e superstições. Não precisamos de solstícios ou equinócios e nem das conjunções da lua para sermos felizes. É preciso, isso sim, acordar, despertar. A vida é isso que escolhemos e que acontece todos os dias, à nossa revelia ou não.

daianabfranco@gmail.com

* A autora é advogada


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