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Liberdade: O “Nós Da Vida”


Eleutheria estava sentada num banco da praça do bairro, presenteada pelo pôr de sol daquele outono de dias quentes e céu rosado. Phylargia sentou-se ao seu lado e, sem muito a fazer, tentou iniciar uma conversa. Procurou saber sobre o que detinha tanta atenção de Eleutheria. O que havia naquele livro que a destinava a tamanha dedicação? Phylargia pensou logo: “ler parece ser tão chato!”

O livro narrava a trajetória da Liberdade Humana como um valor da existência social que percorre toda a história civilizatória. Eleutheria passou a declarar que, segundo o que se afirmava no livro, buscamos ser livres da fome, da guerra, do autoritarismo, do domínio, da chantagem, da opressão. E ao mesmo tempo, precisamos dos outros para garantir nossa própria felicidade, sobrevivência. Um dos capítulos era dedicado à relação entre o amor de um casal e a liberdade possível. Numa relação dessas consiste, em parte, na exigência de se abrir mão de parte de sua individualidade. O encontro de um casal aproxima duas individualidades e cria um ser plural: o nós. O “nós” é o resultado coletivo do encontro de duas pessoas; é um terceiro ente.

As crianças, insuficientemente preparadas para o convívio social, alimentam suas vidas pelo impulso primitivo do egoísmo: “eu quero”, seguido de choro, reclamações e chantagens. Adultos mal preparados a assumirem as regras sociais para a vida coletiva tornam-se seres de comportamento imaturo e reclamam sua liberdade desde que os custos [sociais e materiais] sejam assumidos por terceiros.

E o capitalismo, como forma de organização da vida, atua diretamente neste princípio humano: a liberdade. É a possibilidade de comprar, de escolher, de tornar o desejo uma posse ou propriedade que faz o capitalismo sobreviver às crises e se adaptar a condições absolutamente novas. Sua principal criação instrumental é a moeda: um conversor de desejos em realidade; uma “lâmpada do Aladim”.

Não há liberdade absoluta na medida em que você vive com outros seres que desejam e lutam pela mesma coisa. Sua liberdade subjetiva esbarra na outra liberdade subjetiva e, quando você observa ao longo da rua que rodeia a praça, verifica que há uma tal de liberdade coletiva. Não é só você e seus desejos que habitam este mundo imenso de sua vida, indesejavelmente tão curta a imaginar seus desejos.

A liberdade de ideias, como foro íntimo, parece ilimitada pois você pode pensar o que quiser e não precisa compartilhar posto que muitos pensamentos são indizíveis, são desejos inconfessáveis. São as forças do coletivo agindo sobre você. Tal qual a liberdade de Expressão. Diante dos outros já não se pode falar o que se quer na medida que a Ordem Coletiva se impõe sobre os desejos individuais. Somente os não-amadurecidos se comportam como se seus desejos pudessem simplesmente se sobrepor aos outros e aos desejos dos outros. A garantia da liberdade de Expressão está no compromisso de responsabilidade coletiva, de compromisso social.

As notícias intencionalmente falsas [fake News], as afirmações sem apuração ampla, as declarações dos berros de adultos imaturos, afastam a liberdade coletiva e individual. As mentiras, os contorcionismos, a falta de grandeza de se assumir os erros, a manipulação das palavras, o mentir para si mesmo, as diferenças entre atitudes e discursos, faz gerar um mundo de desconfianças, de incredibilidades.

O sol já não lustrava o céu e o vento esfriava o anoitecer. Eleutheria perguntou o que Phylargia pensava sobre o assunto e recebeu um temeroso dormidor: “desde que eu me dê bem, tudo bem!”. E o sol se pôs.


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