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O fundo do rio


Pareciam dois peixes a observar o fundo do rio. Seechead e Mia contemplavam o ambiente de verão salpicando a brisa de final de tarde como recompensa sob a sombra de um flamboyant. Já maduros pelo trato da vida, pelos desafios e desencantos, tratavam de falar sobre o passado e as aventuras experimentadas. Cicatrizes eram afastadas com contornos de elegância e as conquistas cobertas com pó dourado. O destino rodava a vida todo o tempo. Interessava-lhes, especialmente, as especulações sobre o que aconteceria com a roda viva do tempo. Havia de se viver os dias que viriam! Está-se vivo!

O prefeito havia assumido o governo recentemente. A moratória dos primeiros meses a se finalizar mais rapidamente que em outros episódios. Isso porque era necessário firmar segurança política e governamental aos habitantes, algo que não nasce com o sol. O governo foi instaurado como um amontoado de pessoas, sem o suor de equipe. Cada dirigente se esforçava para ser atacante e goleador, agia por si mesmo, para si; não causava nem mesmo a intuição de ser agente público. Próprio do patrimonialismo, cada qual se fazia “dono do poder”.

O prefeito não exprimia liderança política, tampouco comandante governamental. Tentara ações de efeito publicitário a punir alguns; se organizara pelos problemas de ontem, sem dedicação de planejar os dias de amanhã. Vivia do passado gerenciado pelos problemas. Para a população e para os jornais faltavam fundamentos para se ter esperança de dias de mudança. Diante do cenário, o rio da vida política removia os resíduos densos do leito do rio.

O rio, como coisa de si, apresentava suas forças na massa de água em corredeiras, nos compassos entre pedras, nas margens atraentes, no brilho refletido da luz do sol em fim de tarde. ...

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O prefeito havia assumido o governo recentemente. A moratória dos primeiros meses a se finalizar mais rapidamente que em outros episódios. Isso porque era necessário firmar segurança política e governamental aos habitantes, algo que não nasce com o sol. O governo foi instaurado como um amontoado de pessoas, sem o suor de equipe. Cada dirigente se esforçava para ser atacante e goleador, agia por si mesmo, para si; não causava nem mesmo a intuição de ser agente público. Próprio do patrimonialismo, cada qual se fazia “dono do poder”.

O prefeito não exprimia liderança política, tampouco comandante governamental. Tentara ações de efeito publicitário a punir alguns; se organizara pelos problemas de ontem, sem dedicação de planejar os dias de amanhã. Vivia do passado gerenciado pelos problemas. Para a população e para os jornais faltavam fundamentos para se ter esperança de dias de mudança. Diante do cenário, o rio da vida política removia os resíduos densos do leito do rio.

O rio, como coisa de si, apresentava suas forças na massa de água em corredeiras, nos compassos entre pedras, nas margens atraentes, no brilho refletido da luz do sol em fim de tarde. Seechead argumentava que era preciso admirar o fim, respeitar o fim, e, até mesmo, desejá-lo. Não os da vida, mas o das rotinas da vida. Mia garantia que a vida se assemelha ao rio: vive de ciclos. O fim era desejável a mostrar o recomeço. Não era o fim da vida, mas a eternização do recomeço. A esperança! Há esperanças!

Mia e Seechead, cada qual com seu livro, falavam sobre o eterno do fim; recomeço, esperança. Ainda que, na política, havia o distanciamento, os efeitos dos usos pessoais dos recursos públicos, o não-respeito pelo que é público [a começar pelas pessoas], das abstenções eleitorais. Os vereadores, após as eleições, deixavam de pertencer à população; vivem a vida de “Oposição” e “Situação”: “Situação” de compadrio e “Oposição” de revanchismo. O poder a coordená-los. Estavam no mesmo mar em barcos diferentes; à mercê das mesmas correntezas e infortúnios do tempo, do vento, da tempestade, da indiferença das horas e do clima.

Seechead e Mia conseguiam se entender e amavam a discordância de ideias. Isso os fazia melhorar o olho [posição pessoal] e a visão [relacionamentos]. A distância de Mia e Seechead com o prefeito, ou o vácuo entre política e cidadania, era o fundo do rio e remoção do leito, da lama, dos nutrientes, do lixo. Seechead e Mia, pela própria experiência, interpretam a vida como ciclos, do fim do dia, do reinício do cotidiano. As transformações aparecem em pequenas doses, se insurgem aos atentos, invisíveis aos especuladores.

Tudo se move! O rio sempre ali, nunca o mesmo, sempre rio. As transformações estão no fundo do leito! A política é feita de transições!

 


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