Colunas


Cão Orelha, educação e voto


A violência urbana se expõe nos mais variados territórios sociais. As perturbações que nos rondam e que praticamos pode parecer encadeamento entrópico, uma sensação de desordem, de caos existencial, fim da linha. A entropia [“desordem” de um sistema] procura sua própria tentativa de organização diante dos problemas de relações e interações dentro desse mesmo sistema.

A violência que por ora se narra expõe as feridas das dificuldades extrema de se viver sob LIMITES e aceitá-los como ponderação necessária para se viver em grupos sociais. Os limites não são constrangimentos aos processos de vida em comum, mas protetores da própria relação social e nos libertam dos princípios mais primitivos de espécie. A expressão que as crianças mais ouvem de seus pais, enquanto estão sendo preparadas para a vida social, é “não”: não pode, agora não, não faça isso... E não há nada de errado com isso, principalmente acompanhada de explicações e justificativas ante os resultados adversos. A “Inclusão do Outro” [Jurgen Habermas] principia pelo limite social.

O desejo de ser destaque social, de se obter distinção, pode se manifestar em FRUSTRAÇÕES. Administrar as frustrações [especialmente as que têm origem em traumas psicológicos] é fundamental para que se possa substituir ofensas e agressividades por diálogos, caminhos pelos quais se possa “se ver” objetivamente e observar a situação de dificuldade isolada dos terremotos emocionais. É preciso falar sobre isso e “se falar” sobre isso.

Numa sociedade segundo a qual o culto à “personalidade” e a cultura da “pessoa” – aquilo que se desenrola como distinto por ser algo pessoal, “raro, distinto, único, exclusivo, diferente, insubstituível, incomparável, original” contra o “vulgar, banal, qualquer, ordinário, médio, habitual, trivial” ou a oposição entre o “brilhante e o fosco, fino e grosseiro, requintado e rude, elevado e baixo” [BOURDIEU, Pierre], criam forças e parâmetros para a formação de uma visão de mundo social: do particular contra o coletivo promovidos pelo egocentrismo e individualismo. Essa forma de entender e organizar o mundo tende a colocar o outro como objeto para os desejos do ego [reificação]. As disposições sociais contrárias ao individualismo e egocentrismo são vistas como opressoras aos desejos pessoais e, então, os limites e as regras morais são administrados para serem transgredidos.

Essas disposições individuais geram os tronos monárquicos nos quais os “reis e rainhas” imaginam produzir suas próprias leis de existência absolutista. As leis, que em sua origem servem para organizar a todos num sistema, servem como desejo pessoal, como caminho para organizar os outros às minhas vontades, a orbitar em torno de minhas vontades. A própria transgressão serve como alimento e referência de força para fazer prevalecer minha vontade. Os limites e as coações sociais, quando superados, servem como premiação de meu ânimo íntimo. 

A banalização da violência urbana é fruto do “esquecimento social” de que o outro está ali “como se fosse você” e não “para você” – aqueles tão diferentes que estarão diante de viverão com você o mesmo dia. Você tanto precisa deles como você “está com eles”. Os outros não serão escravos de seus imperativos pessoais. Não será com castigos e açoites num tronco que você fará verter sua vontade. Ela precisa ser negociada como negócio moral e ético!

A agressividade e a violência são meios pessoais para a punição social. Querendo ser distinto e superior, você violará a condição dos Os movimentos relativos ao “Cão Orelha”, à violência contra a mulher, aos crimes urbanos [furtos, roubos, latrocínios, homicídios...], às rupturas das regras sociais [dissimulação e mitomania], são expressões de algo mais profundo em sociedade: a necessidade de se educar às pessoas para a vida diante da necessária inclusão do outro. Respeito, pedidos honestos de desculpas [não aqueles que são iniciados por “se alguém se sentir ofendido”, mas os dotados de senso de erro], cuidado com os outros ao seu redor [como recolher o lixo jogado na rua como ato de responsabilidade social em nome de todos]. Não é o lema piegas de “paz cega”, mas a condições de expandir sua vida entrelaçada a dos outros. 

As leis punem e dão limites pelo temor à punição, pelo temor da punição! A educação protege por orientar à convivência relativamente estável e é mais duradoura. A violência contra animais, meio ambiente, e contra os próprios humanos – as quais são narradas cotidianamente, deve servir como aprendizado. Essa entropia social deve nos oferecer condições de nos protegermos de nossos próprios riscos, perigos e deslocar as incertezas sociais a padrões de segurança ontológica mais adequadas à vida em grupo [de todos os tamanhos e intensidades]. A liberdade é limitada: o primeiro passo é de escolha e decisão, e parece ser o mais sublime porque o ego se torna rei; o segundo passo são as consequências das decisões, que é o mais sublime porque inclui os outros! 

A Política é o sistema amplo para isso, e o voto um dos meios. O cotidiano é o microssistema mais pragmático para isso, e a atitude de todas as horas o meio mais eficiente para isso!

Mestre em Sociologia Política


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

Você é favorável à via que vai ligar a beira-mar da Brava a Osvaldo Reis?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Epstein e a pedofilia como mercadoria de luxo da elite global

VIOLÊNCIA SEXUAL

Epstein e a pedofilia como mercadoria de luxo da elite global

Laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro

CRISTÁLIA

Laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro

Brasil gasta R$ 20 bi para pagar salários que a Constituição proíbe

CUSTO DO PRIVILÉGIO

Brasil gasta R$ 20 bi para pagar salários que a Constituição proíbe

Guerra no Irã: alerta estridente de que combustíveis fósseis não têm nada de seguros

ALERTA

Guerra no Irã: alerta estridente de que combustíveis fósseis não têm nada de seguros

Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país

GUERRA

Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país



Colunistas

Andressa Pera é lembrada na majoritária estadual

JotaCê

Andressa Pera é lembrada na majoritária estadual

Feliz Páscoa

Charge do Dia

Feliz Páscoa

Dourado em silêncio

Clique diário

Dourado em silêncio

Coluna Esplanada

A COP que não acaba

Vice de João Rodrigues vem do norte

Coluna Acontece SC

Vice de João Rodrigues vem do norte




Blogs

Century 21 Signature, rede de imobiliárias com unidades em mais de 120 países, inaugura em Balneário Camboriú

Blog do Ton

Century 21 Signature, rede de imobiliárias com unidades em mais de 120 países, inaugura em Balneário Camboriú

Mídias sociais na administração pública

Blog do JC

Mídias sociais na administração pública

Onde o medo aprende a ceder

VersoLuz

Onde o medo aprende a ceder

Dia Mundial da  Conscientização do Autismo

Papo Terapêutico

Dia Mundial da Conscientização do Autismo

Speed Park comemora resultados do evento de turismo e esporte

A bordo do esporte

Speed Park comemora resultados do evento de turismo e esporte



Podcasts

Vai ter rodeio e shows gratuitos em Camboriú

Vai ter rodeio e shows gratuitos em Camboriú

Publicado 02/04/2026 19:53





Jornal Diarinho ©2026 - Todos os direitos reservados.