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Rosan da Rocha é catarinense, manezinho, deísta, advogado, professor e promotor de Justiça aposentado. Sem preconceitos, é amante da natureza e segue aprendendo e conhecendo melhor o ser humano

Ser mulher vai muito além da biologia


Ser mulher vai muito além da biologia

Com a ascensão de Érika Hilton à presidência da Comissão da Mulher na Câmara Federal, iniciou-se, mais uma vez, uma avalanche de críticas marcadas por traços de transfobia e até misoginia. Vieram de políticos, artistas, influenciadores e de parte da sociedade que não aceita que uma mulher trans possa representar, com legitimidade, as mulheres brasileiras na defesa de seus direitos — historicamente negligenciados e frequentemente violados.

Grande parte dessas críticas se ancora em um argumento reducionista: o de que, por não possuir características biológicas femininas — como a capacidade de produzir gametas ou um aparelho reprodutor feminino —, uma mulher trans não estaria apta a exercer tal função. Trata-se de uma visão limitada, que ignora a complexidade da experiência humana e social.

É fato que as pessoas nascem biologicamente como macho ou fêmea. No entanto, ao longo da vida em sociedade, constroem sua identidade a partir de vivências, comportamentos, expressões e pertencimentos que transcendem a biologia. Ser homem ou mulher, portanto, não se resume a uma condição biológica, mas envolve também uma dimensão social e identitária. É nesse contexto que se inserem as pessoas trans — aquelas cuja identidade de gênero difere do sexo designado no nascimento.

Assim, o fato de Érika Hilton não ter nascido biologicamente do sexo feminino não lhe retira, em absoluto, a condição de ser mulher — nem sua legitimidade para representar mulheres. Ela é, sim, uma mulher trans.

Além disso, sustentar que apenas pessoas do sexo feminino seriam capazes de compreender e defender as demandas das mulheres é um equívoco. A defesa dos direitos femininos exige, antes de tudo, compromisso, conhecimento e ação. Exige a capacidade de enfrentar desigualdades, combater o sexismo, compreender as estruturas que perpetuam a violência de gênero e atuar de forma efetiva para transformá-las.

Mulheres trans, inclusive, vivenciam muitas das dores impostas pelo machismo — como o assédio, o medo e as barreiras sociais —, frequentemente de forma ainda mais intensa, agravadas pelo preconceito e pela exclusão.

No caso específico de Érika Hilton, sua trajetória parlamentar demonstra preparo e atuação consistente. Sua agenda não se limita às pautas LGBTQIA+, abrangendo temas de interesse coletivo, com especial atenção às populações mais vulneráveis. Sua atuação também se destaca no enfrentamento ao preconceito, à discriminação e ao racismo — realidades que ela própria enfrenta cotidianamente, inclusive no ambiente político.

Soma-se a isso o fato de que na eleição para a presidência da comissão foi a única candidata a se apresentar, sendo legitimamente eleita pela maioria.

Defender as mulheres vai além de uma condição biológica. Exige empatia, consciência social, capacidade de escuta e ação prática. Exige compromisso com a desconstrução de estruturas machistas e com a criação de espaços que amplifiquem as vozes femininas — todas elas, em sua diversidade.

Representar mulheres é, sobretudo, saber ouvi-las, respeitar suas experiências, acolher divergências e estar disposto(a) a reconhecer e enfrentar preconceitos, inclusive os próprios.

Por essas razões, Érika Hilton reúne, plenamente, as condições necessárias para representar, com competência e legitimidade, as mulheres brasileiras na Câmara Federal.


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