CRÔNICA DE UM MARCILISTA

O novo e velho Esquenta Galho

Arquibancada descoberta do Gigantão das Avenidas é patrimônio cultural e afetivo da cidade

Torcer na descoberta do Marcílio Dias é garantia de aventura (Foto: Vica Bueno)
Torcer na descoberta do Marcílio Dias é garantia de aventura (Foto: Vica Bueno)

Por Anderson Bernardes

O inverno ainda não começou, mas o clima digno da estação mais fria do ano me faz vestir a camiseta rubro-anil por cima do moletom. É uma opção esteticamente estranha e não tão confortável assim. ...

Já tem cadastro? Clique aqui

Quer ler notícias de graça no DIARINHO?
Faça seu cadastro e tenha
10 acessos mensais

Ou assine o DIARINHO agora
e tenha acesso ilimitado!

O inverno ainda não começou, mas o clima digno da estação mais fria do ano me faz vestir a camiseta rubro-anil por cima do moletom. É uma opção esteticamente estranha e não tão confortável assim. Meu filho, com o manto por baixo de uma jaqueta, também está devidamente uniformizado e protegido do frio. O nosso destino é a arquibancada descoberta do estádio Dr. Hercílio Luz, que desde que eu me conheço por gente recebe o apelido, ao mesmo tempo carinhoso e jocoso, de Esquenta Galho. Nessa noite em que o Marcílio Dias recebe o São Luiz pela última rodada do turno da primeira fase do Brasileiro da série de D, paradoxalmente, faz muito frio no Esquenta Galho.

Continua depois da publicidade

Ao chegar, avisto a arquibancada lotada e a mancha branca da torcida organizada Fúria Marcilista, instalada bem ao centro. Lembro de um tempo em que não existia a Fúria, um tempo em que eu não era o pai e sim o filho. Foi em meados dos anos oitenta, numa tarde ensolarada de domingo, que minhas pernas pequenas e curtas venceram os degraus de cimento daquele lugar pela primeira vez. 

Chegamos cedo, uma tentativa de não enfrentar a multidão. Lembro do cheiro dos foguetes que estouravam com frequência, anunciando que se aproximava a hora do jogo. Lembro de um homem refazendo a marcação do gramado com cal. Lembro do Nego Dico com a bola no gramado, incentivado pelos poucos torcedores que ali estavam a chutar a bola contra a trave vazia e comemorar como se tivesse realmente tivesse marcado um gol.

Cresci frequentando esse lugar sagrado do esporte da minha cidade. Aprendi, como todo marcilista um dia aprende, a ser um pessimista esperançoso. A acreditar na vitória improvável e, principalmente, a duvidar do jogo ganho. No Esquenta Galho, que só tem esse nome autodepreciativo por abrigar uma torcida que adora rir do próprio infortúnio, eu mesmo aprendi a odiar e amar o Marcílio Dias e entender que ele faz parte do nosso jeito de ser itajaiense.

O jogo começa e é fácil perceber que muita coisa mudou nesse lugar. O acesso à arquibancada, que antes era apenas um túnel obscuro, hoje tem loja, bar com chopeiras, pavimentação e iluminação. Na arquibancada, a presença das mulheres nos enche de orgulho e deixa para o passado a ideia de que aquele é um lugar só de homens. Outra conquista recente que enche os olhos é ver toda a arquibancada com as cores do time da cidade, diferentemente de quando os uniformes dos “times de fora” eram permitidos no Gigantão das Avenidas.

Mas há algo que faz parte da alma do Esquenta Galho que continua intacto: o humor, a irreverência da torcida. A torcida que implica com o peso dos próprios jogadores, a torcida que encontra os meios mais criativos para xingar a arbitragem ou os adversários. O alvo dessa vez é o jogador do São Luiz que vai cobrar o escanteio. O torcedor, agarrado ao alambrado, não perdoa:

— Vai timbora, cu de grilo!

Tudo é festa. Tudo é riso. Tem espetinho de gato no intervalo, chope agora com copos retornáveis e personalizados, o reencontro de amigos, e o encontro de estranhos que se descobrem unidos por duas cores. E nem importa o resultado do jogo, a diversão é garantida. 

Mas nessa noite de frio, a primeira vez de meu filho no Esquenta Galho, até o resultado nos traz alegria. O Marcílio joga bem, vence por 3 a 0 e assume a vice-liderança da competição. E para confirmar que o humor e o ceticismo dos marcilistas seguem afiados, um senhor ao meu lado se levanta e grita pra torcida quando o Marcílio marca o terceiro gol já na metade do segundo tempo:

Continua depois da publicidade

— Calma que ainda tem jogo!



WhatsAPP DIARINHO


Conteúdo Patrocinado



Comentários:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Clique aqui para fazer o seu cadastro.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.


Envie seu recado

Através deste formuário, você pode entrar em contato com a redação do DIARINHO.

×






216.73.216.86


TV DIARINHO


O asfalto da Marcos Konder chegou a 56 graus. A calçada, 54. E na sombra, a diferença foi de quase 20 ...



Especiais

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Eleições 2026

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

Cão Orelha

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

BANCO MASTER

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Colonialismo de dados

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil

Microbolsas

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil



Blogs

Pavan, fica fulo e diz que não é prefeito de patacas!

Blog do JC

Pavan, fica fulo e diz que não é prefeito de patacas!

Quando o sentimento não usa máscara

VersoLuz

Quando o sentimento não usa máscara

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas

A bordo do esporte

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas

Uma entrevista interessante

Blog do Magru

Uma entrevista interessante

Você tem andado cansado e com fadiga?

Espaço Saúde

Você tem andado cansado e com fadiga?



Diz aí

"Itajaí aparece próxima de 700 mil habitantes, dentro de um arco metropolitano de cerca de 2,5 milhões de pessoas"

Diz aí, João Paulo!

"Itajaí aparece próxima de 700 mil habitantes, dentro de um arco metropolitano de cerca de 2,5 milhões de pessoas"

“Eu virei turista com a Tante [Lolli] e gostei da profissão”

DIZ AÍ, Dagoberto!

“Eu virei turista com a Tante [Lolli] e gostei da profissão”

“O feminicídio acontece simplesmente pelo fato de a mulher ser mulher”

Diz aí, Regina!

“O feminicídio acontece simplesmente pelo fato de a mulher ser mulher”

“Os preceitos e princípios bíblicos são muito mais inclinados para a direita”

Diz aí, pastor!

“Os preceitos e princípios bíblicos são muito mais inclinados para a direita”

“O hospital foi feito para atender 120 mil, 100 mil habitantes e hoje ele atende num raio de um milhão, um milhão e meio de pessoas”

Diz aí, Juliana!

“O hospital foi feito para atender 120 mil, 100 mil habitantes e hoje ele atende num raio de um milhão, um milhão e meio de pessoas”



Hoje nas bancas

Capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯






Jornal Diarinho ©2025 - Todos os direitos reservados.