Protesto

Pescadores artesanais anunciam greve e prometem parar o porto de Itajaí

Ato faz parte de mobilização contra novas regras do governo

Categoria diz que novas exigências inviabilizam a pesca artesanal (Foto: João Batista/Arquivo DIARINHO)
Categoria diz que novas exigências inviabilizam a pesca artesanal (Foto: João Batista/Arquivo DIARINHO)

A pesca artesanal, atividade que sustenta milhares de famílias e faz parte da cultura do litoral brasileiro, vive um momento de forte tensão. Pescadores do sul e sudeste do país organizam uma paralisação nacional a partir do dia 1º de fevereiro, com manifestações nos portos de Itajaí (SC), Santos (SP), Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS). Também está previsto um ato em Brasília.

O movimento é uma reação a mudanças nas regras da atividade, especialmente à ampliação da exigência do rastreamento por satélite das embarcações, conhecido como Preps. Segundo os pescadores, as normas foram criadas sem diálogo e não levam em conta a realidade de quem trabalha em barcos pequenos.

Continua depois da publicidade

A partir de 1º de janeiro de 2026, uma portaria do Ministério da Pesca e Aquicultura passou a exigir que todas as embarcações da pesca de camarão, independentemente do tamanho, utilizem rastreador por satélite. Antes, a obrigação valia apenas para embarcações maiores, acima de 15 metros. Com a mudança, a regra passou a atingir também a pesca artesanal.

Joab da Costa, pescador de Penha e representante da região Sul, afirma que a exigência é impossível de cumprir. Segundo ele, muitas embarcações artesanais não têm estrutura elétrica básica. “Tem barco que não tem nem bateria. O motor é ligado na manivela. Não tem como colocar rastreador”, diz.

Além da dificuldade técnica, o custo também pesa. Os pescadores afirmam que existe apenas um equipamento homologado pelo ministério, com preço entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, além de uma mensalidade que pode passar de R$ 100. “Isso não cabe na renda do pescador artesanal, que pesca para sobreviver”, afirma Joab.

Outro ponto levantado é a falta de equipamentos de navegação. Muitos pescadores não têm GPS a bordo e, mesmo assim, podem ser punidos caso naveguem por áreas consideradas irregulares. “O pescador atravessa de um ponto a outro, navega devagar, e pode ser multado sem saber que entrou numa área proibida”, explica.

O rastreador não é a única preocupação. A categoria também reclama de restrições à rede boeira, limites baixos para a potência dos motores, proibição da pesca de algumas espécies e dificuldades para cumprir as exigências do Propesc, programa de regularização das embarcações. Para os pescadores, o conjunto de regras gera insegurança.

Randall B. Conceição, pescador de Itanhaém (SP) e um dos organizadores da mobilização, resume o sentimento da categoria. “Com essas regras, o pescador sai para o mar com medo. Medo de perder o barco, a rede, o motor e ainda levar multa.”

Ele também alerta que a limitação da potência dos motores não é uma questão de conforto, mas de segurança. “Hoje tem regra que limita motor a 28 HP. Com o clima do jeito que está, isso coloca a vida do pescador em risco. Se vem uma trovoada, ele precisa de potência para voltar.”

Enquanto os pescadores protestam, o Ministério da Pesca e Aquicultura reforçou as exigências. Em portarias publicadas no Diário Oficial da União, o governo consolidou a obrigatoriedade do Preps e também do envio do Mapa de Bordo para embarcações permissionadas. Além disso, mais de 950 mil pescadores artesanais receberam advertência por não terem enviado, até o fim de 2025, o Relatório Anual da Atividade Pesqueira (REAP). Quem não regularizar a situação até 5 de fevereiro pode ter a licença suspensa e perder acesso a benefícios como o Seguro-Defeso.

Continua depois da publicidade

Diante desse cenário, os pescadores dizem que a paralisação é a única forma de chamar atenção. “O pescador não quer parar porto nem causar transtorno. Só quer trabalhar”, afirma Joab. “Mas quando ninguém escuta, essa acaba sendo a única voz.”

O DIARINHO entrou em contato com o Ministério da Pesca e Aquicultura para pedir posicionamento sobre as reivindicações da categoria, a ampliação da obrigatoriedade do Preps e a possibilidade de prorrogação ou flexibilização das regras. Até a publicação desta matéria, não houve retorno, mas o espaço segue aberto para manifestação.

A paralisação deve ocorrer de forma simultânea nos portos e envolve colônias e associações de diferentes regiões. “Pescador artesanal não é criminoso. É trabalhador”, reforça Randall. “Só queremos regras que deem para cumprir.”

Continua depois da publicidade



WhatsAPP DIARINHO


Conteúdo Patrocinado



Comentários:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Clique aqui para fazer o seu cadastro.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.


Envie seu recado

Através deste formuário, você pode entrar em contato com a redação do DIARINHO.

×






216.73.216.86


TV DIARINHO


O asfalto da Marcos Konder chegou a 56 graus. A calçada, 54. E na sombra, a diferença foi de quase 20 ...



Especiais

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Eleições 2026

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

Cão Orelha

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

BANCO MASTER

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Colonialismo de dados

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil

Microbolsas

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil



Blogs

Warsan Shire. - Quando a casa vira boca de tubarão

VersoLuz

Warsan Shire. - Quando a casa vira boca de tubarão

Para onde está indo a nossa saúde mental, como indivíduos e como coletividade?

Espaço Saúde

Para onde está indo a nossa saúde mental, como indivíduos e como coletividade?

Carangas abandonadas, viram caso de calamidade pública

Blog do JC

Carangas abandonadas, viram caso de calamidade pública

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas

A bordo do esporte

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas



Diz aí

"Itajaí aparece próxima de 700 mil habitantes, dentro de um arco metropolitano de cerca de 2,5 milhões de pessoas"

Diz aí, João Paulo!

"Itajaí aparece próxima de 700 mil habitantes, dentro de um arco metropolitano de cerca de 2,5 milhões de pessoas"

“Eu virei turista com a Tante [Lolli] e gostei da profissão”

DIZ AÍ, Dagoberto!

“Eu virei turista com a Tante [Lolli] e gostei da profissão”

“O feminicídio acontece simplesmente pelo fato de a mulher ser mulher”

Diz aí, Regina!

“O feminicídio acontece simplesmente pelo fato de a mulher ser mulher”

“Os preceitos e princípios bíblicos são muito mais inclinados para a direita”

Diz aí, pastor!

“Os preceitos e princípios bíblicos são muito mais inclinados para a direita”

“O hospital foi feito para atender 120 mil, 100 mil habitantes e hoje ele atende num raio de um milhão, um milhão e meio de pessoas”

Diz aí, Juliana!

“O hospital foi feito para atender 120 mil, 100 mil habitantes e hoje ele atende num raio de um milhão, um milhão e meio de pessoas”



Hoje nas bancas

Capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯






Jornal Diarinho ©2025 - Todos os direitos reservados.