"UMA VIDA É POUCO"
Amor que nasceu na folia resiste à morte em Itajaí
Viúvo visita túmulo todo sábado e diz que vive “pela metade” desde a perda da sua alma gêmea
Camila Diel [editores@diarinho.com.br]
Em tempos de carnaval, tem quem repita o ditado de que “amor de folia acaba na quarta-feira”. Em Itajaí, um morador diz que o dele não acabou nem com a quarta, nem com o tempo, nem com a morte. Neste carnaval, ele estaria perto de completar 50 anos ao lado de Marly, a mulher que conheceu num baile em 1976 e com quem construiu a vida, a sua “alma gêmea”, como define.
A conta só não fecha pela fatalidade que separou os dois: ela morreu de câncer agressivo na vesícula. Desde então, G.C. diz que vive “pela metade”, convivendo com uma saudade que não dá trégua.
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Marly está sepultada no cemitério do Espinheiros. É pra lá que ele vai todo sábado, há três anos, sem falhar um. “Minha vida hoje é isso”, resume. G.C. diz que Marly é um pensamento fixo. Em alguns momentos da entrevista, ele precisa parar a fala, respirar, engolir seco, secar as lágrimas, como quem tenta segurar o que vem junto com a lembrança. E repete a frase gravada na lápide de Marly, que, pra ele, explica o tamanho do amor e da perda: “Uma vida só é muito pouco para nós dois”.
Amor de carnaval que durou a vida inteira
O começo foi no bairro São Vicente, no domingo de carnaval de 1976. Ele e Marly se conheceram à tarde, e os três dias de folia viraram o primeiro capítulo da história. Pularam juntos no domingo, na segunda e na terça-feira. Dez dias depois já estavam decididos.
“Vamos nos juntar e fazer a nossa vida”, lembra. Ele contou ao pai que tinha conhecido uma moça e que não queria mais fazer faculdade. A resposta veio dura. “Meu pai ficou bravo. Ele me expulsou de casa”. Mesmo assim, ele alugou uma casinha simples, tirou Marly da casa dela e os dois começaram do zero.
“A gente não tinha nada. Eu não sabia colocar um prego numa parede”, recorda. “Tinha tudo pra dar errado, porque a gente se conhecia há 10 dias só. Mas deu tão certo que eu acho que não daria com outra”.
Vieram os filhos, o casamento no civil e a vida de trabalho. Ele começou em madeireira, depois foi para a construção civil e, com o tempo, passou a trabalhar por conta própria. Marly trabalhou por anos como autônoma, vendeu pantufas, roupas e depois realizou um sonho: abriu uma loja. “Ela tinha muito bom gosto”, explica o viúvo, orgulhoso. Marly ficou cerca de 12 anos no comércio. “Ela era o pilar da casa”, diz. “O dinheiro que eu ganhava dava tudo na mão dela. Ela que administrava tudo”.
O sonho de Garopaba que ficou no caminho
Depois de décadas de luta, o casal planejou uma fase mais calma. Venderam uma chácara e compraram um terreno em Garopaba. A ideia era morar lá. Marly se aposentou aos 60 anos e, segundo o marido, ficou feliz com essa nova etapa. Só que ela durou pouco. “Não deu tempo”, ele explica, sentido.
As dores começaram e vieram as idas ao médico. Um exame apontou uma pedra grande na vesícula. A cirurgia foi marcada rapidamente. No hospital, segundo G.C., os médicos perceberam que a vesícula estava muito escura. O problema não era apenas pedra, já era câncer. Ele acredita que houve falha no procedimento.
A vesícula é o órgão que armazena a bile, líquido que ajuda na digestão. Segundo o relato dele, durante a retirada do órgão teria ocorrido vazamento dessa bile para a cavidade abdominal. Como já havia um tumor na vesícula, células cancerígenas microscópicas podem ter se espalhado junto com o líquido, acelerando a metástase. De acordo com G.C., essa foi a explicação que recebeu da equipe médica ao longo do tratamento.
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Segundo o viúvo, do diagnóstico até a morte passaram 107 dias. Ele diz que tentou de tudo e não mediu esforços. E conta que, nas internações, chegou a fazer uma proposta desesperada: “Eu ofereci a minha vida pela dela. Perguntei pro médico se podia passar meus órgãos pra ela”. Ouviu que não era possível. Ficou desolado.
Quando recebeu a notícia de que não havia mais tratamento eficaz, ele diz que desabou. “Eu só chorei no ombro do médico”, lembra. “Porque eu sabia que tava perdendo ela. A pessoa que eu mais amei nesse mundo”.
O jeito de ficar perto
Marly morreu há três anos. O viúvo já tinha terrenos no cemitério do Espinheiros e decidiu preparar um deles para o sepultamento. Nos primeiros dias, passou a ir com frequência para acompanhar a construção do jazigo. Queria tudo bem feito, do jeito que ela merecia.
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O que começou como cuidado com a obra virou rotina. No sábado seguinte ao enterro, ele voltou. No outro também. Quando percebeu, já fazia parte da semana. Desde então, não falhou um. E, sempre que consegue, ainda dá uma passada lá durante a semana.
O jazigo mudou com o tempo. Primeiro foi simples. Depois ele ampliou, reorganizou e colocou uma estrutura de vidro para proteger do tempo. “Eu deixo tudo limpinho, bonitinho. É o que eu posso fazer por ela”. Ele acende vela, reza, conversa com Deus e conversa com Marly “como se ela estivesse me ouvindo”. “A impressão é que eu tô no colo dela”, descreve.
Vida que eles imaginaram
Marly se aposentou aos 60 anos e comemorou a nova fase. Segundo ele, aproveitou cinco anos antes de a doença aparecer. Foram 47 anos de casamento. Uma história que começou na folia e virou casa, filhos e planos de futuro.
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Na cabeça dele, o fim seria outro. “Eu sempre imaginei que a gente ficaria bem velhinho. Que ia morrer junto. Lá com 85, 90 anos”, diz. “Eu queria morrer na frente dela porque eu ia sofrer muito. Eu sabia que eu ia sofrer”.
A realidade veio ao contrário e deixou um vazio que ele descreve sem rodeios. “A nossa história não merecia um fim tão melancólico. Eu acho que a gente merecia melhor. Um fim mais bonito. Foi muito trágico”.
Em casa, a presença dela continua. Ele mandou fazer um quadro com a foto de Marly e colocou no quarto. “Se eu soubesse que ia perder ela assim, eu tinha feito muito mais”, afirma. “Tinha abraçado mais. Beijado mais”.
É por isso que ele se agarra ao que consegue fazer agora. “Eu vou velando pelo túmulo dela e dando o melhor de mim lá, sempre mantendo limpo e bonito. É o que eu posso fazer”. E completa: “Se eu pudesse, eu faria um castelo e colocaria uma estátua dela no pedestal. Essa é a minha verdade”.
Sobre as críticas
Pra quem diz que ele precisa seguir em frente e critica a forma de lidar com o luto, a resposta vem direta. “Quem critica não sabe o tamanho da minha dor ou nunca viveu um amor de verdade.” Ele afirma que não consegue se imaginar com outra pessoa. “Eu acho que eu nasci pra ela e ela pra mim”.
Católico, mas também ligado ao espiritismo, ele diz que acredita no reencontro. “Eu tenho certeza que a gente vai se encontrar de novo. Eu faço de tudo pra merecer”.
E, em pleno carnaval, ele deixa um recado que parece sair do fundo do peito: “Valoriza enquanto tá junto. Abraça mais. Beija mais. Faz tudo que puder. Porque depois que perde, não tem volta”.
Camila Diel
Camila Diel; jornalista no DIARINHO; formada pela Univali, com foco em jornalismo digital e produção de reportagens multimídia.
