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Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria


Warsan Shire. - Quando a casa vira boca de tubarão


Publicado 13/02/2026 11:38

Hoje quero falar de uma poeta que me atravessou de forma direta, quase física: Warsan Shire.

 

Nascida em 1988, no Quênia, filha de pais somalis que fugiram da guerra civil, Warsan foi levada ainda bebê para o Reino Unido. Cresceu em Londres, formou-se em Escrita Criativa e cedo se destacou por uma voz que misturava delicadeza e brutalidade com a mesma precisão.

 

Em 2013, venceu o Brunel University African Poetry Prize, prêmio internacional voltado para poetas africanos emergentes. Tornou-se também a primeira Young Poet Laureate for London, um reconhecimento importante para uma artista da diáspora africana ocupando um espaço simbólico na literatura britânica. Desde 2018, é fellow da Royal Society of Literature — uma instituição tradicional que passou, aos poucos, a reconhecer vozes antes marginalizadas.

 

Mas o alcance de Warsan ultrapassou o circuito literário.

 

Sua colaboração com Beyoncé levou sua poesia para um público global. Trechos de seus poemas aparecem no álbum Lemonade (2016), uma obra que discute raça, ancestralidade, dor e resistência negra nos Estados Unidos. Mais tarde, voltou a colaborar em Black Is King, ampliando esse diálogo entre poesia e música pop de escala planetária.

 

Isso é significativo.

 

Uma poeta somali-britânica, filha de refugiados, tendo sua voz amplificada dentro de um dos maiores projetos culturais da música contemporânea. A literatura ali não era ornamento. Era eixo. Era fundamento narrativo.

 

Entre seus livros mais conhecidos estão Teaching My Mother How to Give Birth (2011) e Bless the Daughter Raised by a Voice in Her Head (2022). Em ambos, identidade, exílio, trauma, corpo feminino e herança cultural aparecem não como tese acadêmica, mas como vivência pulsante.

 

O poema que me levou até ela se chama “Home”.

 

Ele começa com um verso que não sai da cabeça:

 

ninguém deixa o lar

a não ser que o lar seja a boca de um tubarão

 

Essa imagem sintetiza o que muitos discursos políticos tentam simplificar. Refúgio não é escolha estética. Migração forçada não é aventura. O poema desmonta a narrativa fria sobre imigração ao lembrar que fugir é sempre o último recurso.

 

Durante a crise europeia de refugiados, entre 2015 e 2016, “Home” viralizou. Foi traduzido, citado em campanhas humanitárias, recitado em atos públicos. Tornou-se símbolo de empatia radical — não porque gritasse slogans, mas porque devolvia humanidade às estatísticas.

 

O que me impressiona em Warsan Shire é essa capacidade rara: unir reconhecimento institucional, alcance global e integridade poética. Ganhar prêmios, colaborar com artistas gigantes e, ainda assim, manter a escrita fiel à dor e à dignidade da diáspora.

 

Há artistas que sobem ao palco.

Há artistas que mudam o palco.

 

Warsan fez as duas coisas.

 

E quando a casa vira boca de tubarão,

a poesia deixa de ser luxo —

torna-se testemunho.

 

📸 ✍️ Alfa Bile

VersoLuz | Jornal Diarinho

 

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