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Desabafo


O discurso está raso. Uma das minhas dúvidas no momento é por que tantas pessoas inteligentes e bem-intencionadas estão falando tantas coisas sem sentido. Algumas são pessoas bem próximas. Da família, do trabalho, amigos queridos. Conheço suas intenções, seu caráter, sua índole. Que não combinam com a falta de bom senso e de equilíbrio que têm demonstrado.

Ano passado, durante um diálogo tenso e com pouco nexo sobre toda essa loucura tensa e com pouco nexo que estamos vivendo, perguntei pra uma amiga: há quanto tempo você gosta de política? A resposta foi seca: não gosto. Perguntei: há quanto tempo, então, você se interessa por política, presta atenção no que está acontecendo? Ela disse que não sabia. Mas fazia pouco tempo. Que ela mediu em meses. Pausa. Silêncio. “Talvez um ano ou um ano e pouco.”

É pouco.

E isso explica muita coisa. Pouco ou nenhum interesse, pouco tempo de atenção, pouco estudo a respeito e quase nenhuma experiência. Combinação suficiente pra justificar a também pouca profundidade do discurso. Da minha amiga e de tanta gente por aí. Aliás, até onde sei, em qualquer área é assim. Sem conhecimento, falta assunto. Por outro lado, vivemos a era da informação. A era do excesso de informação. E de não saber o que fazer com tudo isso. O que ajuda a explicar a mesmice, os clichês e as citações de manchetes de jornal que entopem nossas timelines. Manchetes usadas como se fossem pensamento próprio. Não conscientemente, acredito. Mas, mesmo sem que se perceba, é assim que a coisa tem acontecido. É o que tem pra hoje. Com o requinte de neologismos papagaiados sem dó (ou alguém já usava os termos “coxinha” e “petralha”, pra ficar nesses dois exemplos pouco elogiáveis, antes de 2013 ou 2014?).

Estamos numa época em que quase não lemos livros. Em que a educação formal está em xeque (pra não dizer falida). Leitura de revistas e jornais, por uma enorme parcela dos cidadãos, se limita a manchetes publicadas no Face (o link das matérias está ali, mas encarar um textão? Tá louco, não tenho tempo nem saco pra isso). Além disso, grande parte dos veículos de comunicação limita a leitura de quem não é assinante pago a 10 ou 15 matérias por mês. Além disso II, os jornais, TVs, rádios, revistas, como qualquer outra empresa também visam lucro e têm seus interesses particulares (em sua maioria, inconfessáveis). Portanto, o que vendem como verdade, na verdade costuma ser uma versão da verdade (em alguns casos, nem isso).

Outro “detalhe”: nas redes sociais, quem se importa se a informação veio de um jornal de respeito ou de um site ou blog ou página fake? O interesse se concentra no que estão dizendo: se é munição a favor do meu exército ou contra. Se for a favor, mando ver. Curto e compartilho. A indústria dos boatos, das desconstruções de imagem, das calúnias de quem não tem caráter, agradece a desatenção dispensada, cara-pálida. Poxa, saber a origem da informação pra saber o quanto aquilo tem de verdade é básico. E parece que é isso mesmo: em nossa sociedade ainda não nos demos conta nem do básico.

Importante mesmo é estar na vitrine. Dizer o que pensa, mesmo que não pense. Ser visto e ser lembrado. Pra isso, repetir o que todo mundo está dizendo (turmaaa, olha como sou inteligente) vale tanto quanto postar uma foto do próprio ego fazendo pose com um pedaço de braço estendido em primeiro plano (olha como sou lindo). Rendeu curtidas? Ufa! Pronto. Vou dormir feliz.

Voltando à política no Brasil: quanta gente perdida e cheia de opinião. Quanta gente cheia de certezas sobre o que não faz ideia. Quanta gente achando isso e aquilo, quando nunca procurou. Ou procura há bem pouco tempo, como a amiga que citei lá em cima. Não vou dizer cheia de razão, até porque razão é o que mais tem faltado. Sobra emoção. Por falar em emoções, não custa lembrar que tanto amor quanto ódio costumam cegar. Talvez isso explique tanta gente obcecada. Brigando. Não entendendo e se desentendendo. Equilíbrio, ponderação, raciocínio, desenvolvimento de ideias, debates maduros, construtivos e aprofundados não têm tido espaço. Pena, né? Superoportunidade pra crescer (crise é oportunidade) e a gente aqui, se repetindo, mais uma vez esperando pelo super-homem (em nova embalagem, claro. Válida por mais 4 anos).

Não sei como vai acabar essa história. O que sei é que é difícil, sim, falar sobre o que não sabe. Sobre um assunto que não domina. Ter pensamento crítico sobre o que nunca ouviu falar. Sei que é quase impossível se dar bem em um pós-doutorado quando ainda se está em processo de alfabetização (politicamente SomosSemiAnalfabetos). Ou analfabetos funcionais: sabemos votar). Agora, cadê a humildade de assumir essa condição? Cadê o pé no chão? Sou super a favor da liberdade de expressão. Nasci em tempos de ditadura. Cresci em tempos de censura. Defendo muito o direito de cada um falar o que pensa. Mas de boa: como direito, não como obrigação.


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