Colunas


Estatizando a sociedade civil


O decreto número 8243, da presidenta Dilma Rousseff, que institui a política Nacional de Participação Social, deu pano pra manga no entremeio da copa. O decreto trata de criar um sistema de participação da sociedade nos órgãos e entidades da administração pública federal, direta e indireta. A ideia, segundo o governo, é aproximar a sociedade civil e o Estado, aprimorando os mecanismos de diálogo e ação conjunta entre ambos.

No debate, não falta nem a consideração um tanto paranoica de que o decreto é um golpe institucional, uma porta aberta para a criação de “sovietes”, ao estilo da revolução Russa de 1917. Mas há críticas sérias à proposição. A mais pertinente delas sustenta que a matéria é complexa demais para ser apresentada sob a forma de decreto.

As intenções podem ser as mais louváveis, mas por que não apresentar a proposição como um projeto de lei, dando ao congresso Nacional – a instância superior da vontade nacional e popular – o direito de debatê-la, modificá-la e até rejeitá-la?

Vejam a contradição. O propósito anunciado é o de ampliar os mecanismos e instâncias da democracia direta. Mas a proposição, assim nobre e elevada, não vem do povo em manifestação direta. Também não tem origem no parlamento, que representa o povo, e que seria a via indireta. O decreto é uma manifestação da vontade de uma única pessoa, Dilma Rousseff, que é presidenta da República, não imperadora.

O decreto leva a assinatura de Dilma, mas com certeza é uma criação da fina flor da burocracia, tal o esforço de esgotar a matéria, o nível de detalhe, a quantidade de mecanismos e instâncias que pretende acionar. Se não for barrado de alguma forma, a gestão pública brasileira vai ficar engessada no palavrório e na pouca ação de comissões, fóruns, conselhos e conferências.

Até mesmo a definição de sociedade civil veio no decreto: “O cidadão, os movimentos sociais, institucionalizados ou não, suas redes e organizações”. Dilma, os autores do decreto, devem saber que está longe de haver consenso sobre o conceito de sociedade civil. Escolheram um, arbitrário, contingente, e que – é justo supor - se ajusta melhor aos verdadeiros desígnios dos seus autores.

Para a democracia, é melhor uma sociedade civil constituída de cidadãos que não pertençam ao aparato estatal e que guardem autonomia em relação ao Estado. Quando os limites, por assim dizer, não ficam claros, quando os conceitos se confundem e misturam, estamos no limiar da tentação autoritária.

O édito imperial propõe uma participação sui-generis da sociedade civil. Assim, por decreto, quando muito, se trata de uma tentativa de cooptação da energia criadora, do dinamismo que brota nas genuínas – não manipuladas - experiências coletivas da comunidade social.

O decreto é imprestável para o seu propalado objetivo. Ao contrário de valorizar a participação da sociedade civil, irá desnaturá-la, calará as vozes autônomas da sociedade civil. As entidades da sociedade civil se tornarão (para) estatais. Que o governo de turno é estatizante, vá lá. Mas querer estatizar até a sociedade civil já é demais.


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

Punição prevista em lei pra maus-tratos a animais funciona no Brasil?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Eleições 2026

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

Cão Orelha

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

BANCO MASTER

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Colonialismo de dados

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil

Microbolsas

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil



Colunistas

Asfalto chega a quase 60 graus em Itajaí

Charge do Dia

Asfalto chega a quase 60 graus em Itajaí

Aurora em Cabeçudas

Clique diário

Aurora em Cabeçudas

Fiesc pede cautela na agenda 6x1

Coluna Acontece SC

Fiesc pede cautela na agenda 6x1

Carnaval já começou no Guarani

Jackie Rosa

Carnaval já começou no Guarani

Osmar tá on em Barra Velha

JotaCê

Osmar tá on em Barra Velha




Blogs

Marcílio Dias: ou ganha ou ganha

Blog do JC

Marcílio Dias: ou ganha ou ganha

Warsan Shire. - Quando a casa vira boca de tubarão

VersoLuz

Warsan Shire. - Quando a casa vira boca de tubarão

Para onde está indo a nossa saúde mental, como indivíduos e como coletividade?

Espaço Saúde

Para onde está indo a nossa saúde mental, como indivíduos e como coletividade?

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas

A bordo do esporte

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas






Jornal Diarinho ©2025 - Todos os direitos reservados.