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Eduardo Galeano e as veias abertas


Guardadas as proporções, foi como se Karl Marx aparecesse para dizer que não tinha qualificação suficiente para escrever “O Capital”. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, em acesso de modéstia e sinceridade, para surpresa dos seus admiradores, afirmou sem meias medidas que não tinha o preparo nem o treinamento necessário para escrever “As Veias Abertas da América Latina”.

“As Veias Abertas da AL” é uma obra clássica, definitiva no pensamento da esquerda latino-americana e mundial. O livro escrito quando Galeano era um jovem e impetuoso autor de 30 anos é um vigoroso libelo contra a exploração do continente, a pilhagem que começou na descoberta, atravessou cinco séculos e perdura até hoje. Os culpados têm nome e endereço: Portugal, Espanha, Inglaterra, ontem, e mais recentemente, hors-concours - os Estados Unidos.

Nos 43 anos desde o lançamento do livro, ninguém que tenha se sentado nos bancos da universidade ignora o seu conteúdo: nós, latino-americanos, somos vítimas de um processo histórico de extorsão e só não alcançamos a prosperidade e o desenvolvimento porque as grandes potências, EUA à frente, além de roubar nossas riquezas, nos impediram. “Somos pobres; a culpa é deles”, é o que o livro diz, em essência.

O fato é que “Veias Abertas“ vendeu mais de um milhão de exemplares, em 12 idiomas, no mundo todo e principalmente na América Latina. Afinal, ali estava, ao alcance da mão, a explicação singela, de fácil compreensão, da nossa pobreza e do nosso subdesenvolvimento. Estava em livro, aplicada à vida e à sorte das nações e do continente, a propensão comum de atribuir aos outros a culpa dos nossos erros e fracassos.

Galeano é um crítico implacável – e bem humorado – de sua própria e mais conhecida obra: “Eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera”. Ou de outra maneira, segundo outra fonte: “Eu não tinha a formação necessária (para escrevê-lo). Eu não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado. Para mim, essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro”.

Certos setores da esquerda, impermeáveis a toda mudança – à exceção da mudança que ela propõe – dizem que Galeano perdeu o elã por causa de um enfarte e de um câncer. E, claro, não falta quem considere a mudança uma traição, uma guinada conservadora do autor.

O escritor tem uma explicação simples, bem mais plausível e convincente: “A realidade mudou muito, e eu mudei muito. A realidade é muito mais complexa”. Galeano poderia ter ficado na sua, gozando da fama de sua obra, no mínimo um registro brilhante da “memória emocional do colonizado”. Como é um homem de bem, honesto intelectualmente, viu o mundo mudar à sua frente e ele próprio, com modéstia e sinceridade, reviu parte do que escreveu. É um ato digno, elevado, e que o faz muito maior do que o autor de um livro importante.


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