Colunas


Porque toda a tragédia tem um pouco de comédia - Por Kátia Nascimento


Amigo, sábado me aconteceu algo inusitado. Minha vizinha, amiga mesmo, me chamou pelo telefone. Tu sabes, né, quase ninguém te chama pelo telefone. As pessoas usam o whatsapp, então, ela ligou, estava meio adoentada, eu atendi rapidamente, e a frase foi a seguinte, com voz muito baixa, quase pra dentro: tu tens pilha palito? Ele não tá se sentindo bem e eu quero medir sua pressão, mas o aparelho está sem pilha. Disse apenas que já estava indo. 

Já na porta do apartamento, duas pessoas idosas me perguntaram se eu ia entrar, porque se eu fosse entrar, elas não entrariam, pois teria muita gente lá dentro, e tu sabes, tem o vírus. Entrei. Não sabia ao certo o que se passava. O pequeno menino, aquele que parece um Curumin, me guiou, disse que seu pai estava respirando mal, e o imitava, querendo deixar tudo explicadinho. Minha amiga, a mulher dele, já estava ao telefone, chamando a ambulância, e eu mal o tinha visto. No quarto, encontrei aquele homem deitado com as pernas para cima, água jorrando de seu corpo, que pensei, saravá, que essa água seja pra limpar sua alma, seu espírito. Ela me pedia que segurasse sua mão, com a finalidade de fazer o sangue circular, ele estava gelado, assustadoramente, gelado. Eu comecei a fazer massagem, com o coração e o pensamento nos guias espirituais de nós todos. Chamei todo mundo, né, alguém tinha que vir nos ajudar. E vieram, claro, porque quando a gente chama, eles vêm em caravana. Esse amigo é valoroso. Ele é valoroso, eu gritava mentalmente. Ora! Eu disse a eles, um poeta não pode morrer, pelo menos tão cedo. Um poeta exerce uma função reflexiva e psicológica nas pessoas. Não é bem assim, vamos pôr as coisas em pratos limpos, né?

Enquanto isso, o Curumin corria de um lado a outro, concentrado em suas rezas íntimas, que as fazia em seu quarto, e em deixar os brinquedinhos ao lado do pai, para dar sorte. Ele estava tão concentrado em ser necessário ali, e certamente o era, que me chamou a atenção, quando os homens da ambulância chegaram, que nós dois deveríamos estar com máscara, porque já havia muita gente naquele lugar. Concordei e disse que a minha estava na bolsa, no quarto do seu pai. Pois ele foi lá, trouxe a bolsa, e colocamos as máscaras. Muito mais seguros ficamos nesta vida, a partir dali. Ele será um grande homem!

A mulher do meu amigo, incansável, e esquecida que ficou de que estava doente, corria para resolver tudo. Quem a conhece sabe que estava com o coração estraçalhado, o seu amor estava ali ...

Já tem cadastro? Clique aqui

Quer ler notícias de graça no DIARINHO?
Faça seu cadastro e tenha
10 acessos mensais

Ou assine o DIARINHO agora
e tenha acesso ilimitado!

Já na porta do apartamento, duas pessoas idosas me perguntaram se eu ia entrar, porque se eu fosse entrar, elas não entrariam, pois teria muita gente lá dentro, e tu sabes, tem o vírus. Entrei. Não sabia ao certo o que se passava. O pequeno menino, aquele que parece um Curumin, me guiou, disse que seu pai estava respirando mal, e o imitava, querendo deixar tudo explicadinho. Minha amiga, a mulher dele, já estava ao telefone, chamando a ambulância, e eu mal o tinha visto. No quarto, encontrei aquele homem deitado com as pernas para cima, água jorrando de seu corpo, que pensei, saravá, que essa água seja pra limpar sua alma, seu espírito. Ela me pedia que segurasse sua mão, com a finalidade de fazer o sangue circular, ele estava gelado, assustadoramente, gelado. Eu comecei a fazer massagem, com o coração e o pensamento nos guias espirituais de nós todos. Chamei todo mundo, né, alguém tinha que vir nos ajudar. E vieram, claro, porque quando a gente chama, eles vêm em caravana. Esse amigo é valoroso. Ele é valoroso, eu gritava mentalmente. Ora! Eu disse a eles, um poeta não pode morrer, pelo menos tão cedo. Um poeta exerce uma função reflexiva e psicológica nas pessoas. Não é bem assim, vamos pôr as coisas em pratos limpos, né?

Enquanto isso, o Curumin corria de um lado a outro, concentrado em suas rezas íntimas, que as fazia em seu quarto, e em deixar os brinquedinhos ao lado do pai, para dar sorte. Ele estava tão concentrado em ser necessário ali, e certamente o era, que me chamou a atenção, quando os homens da ambulância chegaram, que nós dois deveríamos estar com máscara, porque já havia muita gente naquele lugar. Concordei e disse que a minha estava na bolsa, no quarto do seu pai. Pois ele foi lá, trouxe a bolsa, e colocamos as máscaras. Muito mais seguros ficamos nesta vida, a partir dali. Ele será um grande homem!

A mulher do meu amigo, incansável, e esquecida que ficou de que estava doente, corria para resolver tudo. Quem a conhece sabe que estava com o coração estraçalhado, o seu amor estava ali, como quem partiria e, então, levariam mais tantos anos para se reencontrar. Parecia um tanto quanto injusto. Mas ela é muito prática, de uma praticidade que salvou a vida dele. Se ela tivesse pensado em primeiro chorar o acontecido, ai, meu amigo, talvez não tivesse dado tempo.

Foram para o hospital, e o Curumin se viu apenas comigo: você sabe que eu tenho duas mães? Sim, eu sei. Mas eu só tenho um pai. Quando ele disse isso, minha vontade era de colocá-lo no colo e abraçá-lo. Me aguentei, pois o que ele não precisava, no momento, é de uma tia chorona que o fizesse sofrer mais ainda.

Minha amiga, quando soube que o problema foi o coração, sozinha comigo, no corredor do hospital, aí sim, ela se desmanchou. E eu, assim como com o Curumin, queria colocá-la no colo e abraçá-la. Mas uma tia chorona não ajuda muito.

Tudo passou, meu amigo, ele sobreviveu, como há muitas outras intempéries da vida.

No dia seguinte, grata pelo acontecido e pela oportunidade de repensar muitas coisas, inclusive da importância que as pessoas têm em nossa vida, lembrei das pilhas.

Amigo, de onde tu pensas que eu tirei pilha palito para a minha amiga usar no aparelho de pressão?

Ao amigo André, a quem tenho certeza da amizade que atravessa vidas.


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

Punição prevista em lei pra maus-tratos a animais funciona no Brasil?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Eleições 2026

Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete “entregas concretas”

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

Cão Orelha

Porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

BANCO MASTER

BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Colonialismo de dados

Especialista explica o que querem os donos das big techs

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil

Microbolsas

Vamos investigar o lobby das Big Techs pelo Brasil



Colunistas

Agricultura familiar leva revés do Estado

JotaCê

Agricultura familiar leva revés do Estado

Onde a Cidade Aprende a Torcer

Clique diário

Onde a Cidade Aprende a Torcer

Coluna Esplanada

Mulheres no front

CPI dos Cartórios depende de assinaturas na Alesc

Coluna Acontece SC

CPI dos Cartórios depende de assinaturas na Alesc

Casório em Cabeçudas

Coluna do Ton

Casório em Cabeçudas




Blogs

Pavan, fica fulo e diz que não é prefeito de patacas!

Blog do JC

Pavan, fica fulo e diz que não é prefeito de patacas!

Quando o sentimento não usa máscara

VersoLuz

Quando o sentimento não usa máscara

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas

A bordo do esporte

Tour de France no Brasil ganha nova patrocinadora de bicicletas

Uma entrevista interessante

Blog do Magru

Uma entrevista interessante

Você tem andado cansado e com fadiga?

Espaço Saúde

Você tem andado cansado e com fadiga?






Jornal Diarinho ©2025 - Todos os direitos reservados.