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Um grito de resistência


Não é de hoje que somos diariamente bombardeados pelos estrangeirismos. Na televisão, no cinema, nas rádios e nos jornais, as personagens saídas das pranchetas de desenhistas norte-americanos e japoneses reinam quase absolutas. E não é só. Numa nação de língua portuguesa, como o Brasil, não se compra em liquidações, mas em sales, com tantos por cento off de desconto. Os internautas não têm endereço eletrônico, e sim e-mail. Pede-se comida delivery e assiste-se a programas pay-per-view. E, de uns anos para cá, passaram a comemorar o raloim, o dia das bruxas.

Foi por tudo isso que um grupo de pessoas, preocupadas com o distanciamento progressivo de nossas raízes e a consequente perda da identidade, resolveu criar a Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci. Reunidos em São Luiz do Paraitinga/SP, fundaram uma organização para pesquisar e difundir nossa riquíssima cultura popular.

Mas, se o consumo dos produtos e valores importados vêm se acentuando devido aos velozes meios de comunicação, que os trazem para dentro de casa, das escolas e das manifestações culturais com rapidez espantosa, vale lembrar que no início do século XX estudiosos como Monteiro Lobato já enfrentavam este problema aqui mesmo, no Vale do Paraíba. Irritado com a estatuária d’além mar reproduzida em ninfas, faunos, elfos e anõezinhos germânicos “que enfeiavam nossos espaços públicos”, ele denunciava: “Por que tais niebelungices, mudas à nossa alma, e não sacis-pererês, caiporas, mães d’água, e mais duendes criados pela imaginação popular?”

Empenhado em conhecer mais de perto o lendário nativo, Monteiro Lobato convocou os leitores do jornal O Estado de S. Paulo a darem sua versão sobre o Saci. A repercussão da iniciativa, nas próprias palavras de Lobato, levou-o a idealizar um livro. Ironicamente, “O Inquérito sobre o saci” foi lançado em 1918, na fase mais sangrenta da 1ª Guerra Mundial que se desenrolava na Europa. Sua obra, dizia ele, viera para despertar consciências adormecidas.

Coincidência ou acaso da história, a Sosaci nasce também num contexto de conflagração, quando Estados Unidos e Inglaterra, potências admiradas e copiadas por um número cada vez maior de pessoas ao redor do planeta, desencadeiam guerras inaceitáveis para manter a hegemonia econômica. Daí a importância de uma entidade como a Sosaci, que resgata um emblema da cultura e do folclore brasileiros e da resistência do nosso povo. Espécie seriamente ameaçada de extinção no mundo globalizado, o Saci Pererê, defensor da natureza, dos nossos costumes e tradições, dá o primeiro grito de alerta e convida todos os simpatizantes da Iara, do Curupira, da Cuca, do Mapinguari e do Boitatá a abraçar sua causa.


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