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O planeta água pede água!


Desde tempos imemoriais deslizo por extensas cicatrizes geológicas, serpenteando os campos e desgastando ásperas pedras dilatadas. Não vivo em mim mesma. Vivo a vida dos outros! Muito prazer, meu nome é água.

Em 12 de abril de 1961, Iuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a completar uma órbita ao redor do planeta. É dele a célebre frase “A Terra é azul”. Portanto, sob a perspectiva de um visitante vindo do espaço, somos o planeta água. Não por acaso. Afinal, estou presente em dois terços da superfície da terra.

Devemos comemorar? Não! Minha presença no planeta é dificultada por uma série de fatores. Embora dois terços da Terra sejam compostos por mim, 97% de minha composição é salgada. Restam 3%. Ocorre que 2% estão congelados nos polos. Apenas 1% do que sou está disponível para o consumo. Aqui, o drama se acentua drasticamente: de um total de sete milhões de quilômetros cúbicos de minha composição potável existente no planeta, dois terços são consumidos pela irrigação agrícola e parte significativa destina-se ao uso industrial. Resta, para consumo humano, uma ínfima fração. Historiadores acreditam que a próxima grande guerra mundial se dará não pelo petróleo e, sim, pelo domínio de minhas reservas potáveis.

No dia mundial que me é dedicado, pensei em formas de conscientizar a população do planeta sobre a importância de minha preservação. No início, fui autoritária: “somos ligados umbilicalmente. Sou o útero que lhes proporcionou abrigo e formatou a vida no planeta. Exijo respeito”! Fui ignorada. Preocupada, recorri à diplomacia: “sou mera coadjuvante! Parte integrante de uma ordem estabelecida”. Continuei ignorada. Em pânico, apelei para o sagrado: “pelo amor de Deus”! Inútil. Não percebi que os simples mortais não se envolvem com as coisas de Deus, pois, justamente eles, creem-se deuses.

Estudos revelam que em 2025, minha escassez afetará metade da humanidade. Se o futuro é sombrio, o presente é preocupante. Hoje, um bilhão e 75 milhões de pessoas não me têm. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam o tamanho do problema: 1,2 bilhão de pessoas bebem-me na forma imprópria para consumo e mais de cinco milhões de pessoas, em sua maioria crianças, morrem todos os anos de doenças relacionadas ao meu consumo. A frieza da morte formata minha sombria aritmética.

Especialistas do mundo todo apontam as causas do problema que ameaça minha sobrevivência na Terra: “o represamento para a produção de energia, o desmatamento visando à expansão de áreas urbanas ou de áreas rurais, a mineração e o assoreamento do leito pelo acúmulo de detritos são algumas das fontes de poluição que afetam os grandes rios do planeta”. Quanto às soluções... A dessalinização de minha forma marinha poderia ser uma alternativa, na esteira das novas tecnologias. No entanto, o alto custo na implantação deste processo é proibitivo à maioria dos países. A minha conservação continua sendo a solução mais vantajosa. Algumas medidas para solucionar a crise dos recursos hídricos dependem do poder público e de políticas estratégicas. Outras dependem do cidadão e de seu grau de conscientização. Será possível reverter o caos?

Costumo ser otimista quando analiso possibilidades. Por que não haveria de ser? A teoria quântica demonstra-nos que tudo o que vive foi gerado pelo colapso das possibilidades. Mas... Por ironia, quando cruzava o deserto da Califórnia presenciei algo preocupante. Algo que me fez ter a exata noção da dificuldade do ser humano em solucionar a crise dos recursos hídricos. Vi, no Hotel Bellagio, em Las Vegas, 100 milhões de litros de mim dançando ao ritmo de melodias de cinema por meio de esguichos sincronizados num lago artificial de três hectares. É um insulto! Enquanto poucos assistem à “dança do insulto”, milhões, espalhados pelos países subdesenvolvidos, assistem, com sede, o planeta água pedindo água.

* O autor é jornalista


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