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Independência, pátria, mátria


Sete de setembro de 1822. Dom Pedro I, montado em uma mula, sem a presença do povo [uma ideia sem correspondência em fato], com poucas testemunhas, reclama a Independência de um novo país: Brasil. Composição de uma árvore que servia para construção de móveis e cuja resina era utilizada para tingimento, o Pau Brasil [Ibirapitanga] começa a dar identidade a um território que se pretendia autônomo e livre. E já formara uma classe de trabalhadores de baixa estirpe: os brasileiros, exploradores de Pau Brasil.

A definição de sua elaboração política, como num drama psicológico, começa pela relação entre D. João VI [pai] e D. Pedro I [filho]. Um “rompimento” de complemento: dois reinos, uma família. Sem cavalos de guerra, nem posturas napoleônicas, D. Pedro I, soa um Estado que não se faz nação, sem povo. Sem a configuração de conquista popular, o tal “povo” serviu, em toda a trajetória da formação política, como uma rubrica rabiscada para sustentar apelos políticos populistas e autoritários. Da Era Vargas ao período de Ditadura, o povo, um conjunto de corpos levados ao sentimento de poder, foi uma invenção para a construção de “delírios” personalistas.

Sete de setembro, por vários anos, foi equivalente a marchas militares, desfiles escolares, apresentação de armas, num arremedo de países que apresentavam foguetes poderosos, arranjos belicosos amedrontadores, exércitos que marcavam sua identidade no compasso vibrante do firme choque dos pés a socar o chão. Todos juntos, um país, um povo, um compasso, e o mesmo ponto de observação. A disciplina e a hierarquia firmavam a força de um país.

Em países democráticos, abertos e fundados na liberdade e na cidadania, todos mediados por instituições fortes, e políticos submetidos às leis, a despeito de suas vontades pessoais, a comemoração de independência é trilhada pela celebração da história e seus feitos, das conquistas e seus orgulhos, das superações datadas e sua cidadania. De um outro jeito, um país, um povo, um sentimento.

Atualmente, a dia da independência já não serve a um único país, mas para a formação de batalhas. Na festividade de independência sobram xingamentos. Há tantos delírios hoje quanto o imaginário de heroísmo de Pedro Américo, ao limpar os pincéis de declaração de independência. Como não se bastassem os problemas reais, o ilusório é o volume de sentimento de força ao se declarar “guerra” a alguém ou a uma instituição. Fruto do afastamento da cidadania, as pessoas gritam como inquisidores medievais e se esquecem das alucinações sobre a ivermectina ou hidroxicloroquina, dos desvarios do ‘voto auditável’, da insânia prova de manipulação dos resultados eleitorais, dos versos sobre o “Centrão” e odes sobre o combate irrestrito à corrupção. O delírio, ao menos em psicologia, exprime um estado mental patológico daqueles que não admitem estar errados e, diante de seus próprios erros que a realidade lhe flagra sem esforços, distorcem a existência ao seu redor.

Há delírios em sete de setembro: luta contra comunismos e esquerdismos, direitismos e liberalismos, quando, com uma leitura rápida de sociologia política, nem um nem outro podem ser evidenciados: somos, em todas as escalas, patrimonialistas. Um país que pouco amadureceu em democracia e liberdade, cidadania e tolerância, está a ver a realidade com os olhos fechados. Não sabe a letra de seus hinos, não conjuga respeito e autonomia, não se firma em cidadania. No descompasso do baile da Ilha Fiscal, que a Mátria nos seja mais generosa, mais educadora, mais responsável, e nos eduque ao patriotismo não populista. E que possamos ter independência política e autonomia de pensamento [pensar por si] para evitarmos mentiras e manipulações. Ainda montados em mulas, precisamos de independência!


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