Diz aí, padre Márcio!

"Sempre busquei no sacerdócio sair da sacristia, descer do altar, ir onde as pessoas estão".

Márcio Alexandre Vignoli | pároco da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Itajaí

"A nossa missão é essa: iluminar as consciências e não tomar partido" (foto: Fran Marcon)
"A nossa missão é essa: iluminar as consciências e não tomar partido" (foto: Fran Marcon)
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Um mês após assumir como pároco da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Itajaí, o padre Márcio Alexandre Vignoli foi entrevistado pela jornalista Fran Marcon e o historiador Magru Floriano. Fé, gestão da igreja, restauro, entre outros assuntos fazem parte da entrevista.

 

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O senhor completa 28 anos de sacerdócio em maio deste ano. Por que decidiu ser padre?

Padre Márcio: Desde muito cedo tive a prática religiosa, inspirada em meus avós, e com eles eu sempre ia à igreja. Logo me envolvi naqueles grupos de reflexão das comunidades, os grupos bíblicos e foi assim despontando esse desejo. Me tornei coroinha e desde que me conheço por gente disse que queria ser padre. Cultivei isso desde muito cedo, claro, influência do meio, dos avós, da comunidade em Camboriú que era bastante vigorosa, mas sempre quis ser padre. E estou feliz.

Após passar por diversas igrejas, o senhor chegou a Itajaí. Como foi o seu primeiro mês à frente da igreja Matriz do Santíssimo Sacramento?

Padre Márcio: Pra mim foi muito emocionante. Faz um mês que eu cheguei. No dia em que eu iniciei a missão de posse, eu falava da emoção, porque Itajaí sempre fez parte da minha história e da minha família. Eu me lembro pequenino, de uma família bastante carente que morava à beira do rio Camboriú, eu vinha com minha mãe aqui, se eu não me engano, na Joca Brandão, onde tinha uma casa da LBA, Legião Brasileira de Assistência. Nós vínhamos uma vez por mês para buscar aquele pacotão de leite. Vínhamos de Praiana, muitas vezes, a minha mãe dizia: “passa na roleta comigo”, porque não tinha dinheiro para duas passagens. Aquilo sempre me encantava. Passar na igreja Matriz e vê-la tão grande e eu tão pequenininho. Tínhamos Itajaí como um lugar onde íamos buscar o sustento. Assim como outras tantas pessoas; quão importantes são esses mecanismos que ajudam as pessoas mais carentes. Depois, me lembro também que as compras, principalmente para a roupa de Natal, depois para a roupa da Festa do Divino Espírito Santo, vínhamos aqui na Hercílio Luz. Tinha um curso de datilografia atrás da Igreja Matriz. Eu fui contemplado em vir fazer o curso. Logo que eu fui ordenado diácono, para auxiliar o pároco fui morar na rua Odílio Garcia, na igreja de São Cristóvão. Depois fui ordenado padre e logo fui nomeado para ser pároco em uma nova paróquia. Fico muito feliz de estar aqui.

 

"A nossa missão é essa: iluminar as consciências e não tomar partido"

 

O senhor ampliou os horários das missas e de abertura da igreja. Há mais alguma novidade?

Padre Márcio: Uma característica que vem da minha infância e também da escola. Eu estudei sempre em colégio público, o Colégio José Arantes, também junto ao Grêmio Estudantil exerci essa liderança. Esse desejo de fazer para fora, no sentido de abrir mais espaços, alcançar mais pessoas, ver para além da própria instituição. Sempre busquei isso no sacerdócio, sair da sacristia, descer do altar, ir onde as pessoas estão. Um pouco mais de proximidade. Inclusive o evangelho de ontem [segunda] falava isso, a proximidade de Jesus. Por onde eu passei sempre busquei fazer isso. Entender os ciclos das pessoas, entender a cidade e oferecer, oportunizar os meios de evangelização. Eu gosto muito de estudar e ver os ritmos da cidade. Começamos agora em fevereiro essa missa de 12h15 e mais missas nos horários dominicais. Tem sido muito bom oportunizar, abrir espaços e acolher as pessoas nos diversos ritmos de sua vida.

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O padre Eder havia restringido a realização de casamentos fora do horário das missas. Na sua gestão haverá alguma restrição para as celebrações?

Padre Márcio: Eu entendo que o padre Eder, junto com o conselho de pastoral, entendeu que precisava dar um tempo por conta de muitos exageros e algumas situações que ele viu como não tão boas. Também por conta do novo modo de preparação para o casamento, que é uma catequese continuada, não é só aquele curso de noivos de um domingo. Isso não só Itajaí, mas em toda a igreja. Uma preparação com os noivos que demanda um tempo maior. Evidentemente que eu vejo que, tendo amadurecido, as pessoas que quiserem casar em meio a uma celebração da comunidade, o que eu acho muito, muito bonito, continuarão tendo essa possibilidade, mas também a possibilidade que é prescrita pela igreja de fazer o casamento em outro horário, mais particular, junto com seus familiares, mas sempre que seja público. Uma das coisas que aconteceu é que houve um casamento na cidade, em que se contrataram seguranças, na igreja poderia entrar somente as pessoas que estavam na lista de convidados. Como se tivessem alugado a igreja. Na entrada tinham guardas... Isso não pode acontecer. [Virou um cenário cinematográfico...] Isso despertou no padre Eder: “não está legal isso”. Foi preciso cortar meio na carne para que as coisas se restabelecessem. A ponto que se o casamento não for público, se ele não for aberto a todos, inclusive ele perde sua validade, porque ele precisa ser um ato público e qualquer pessoa da comunidade pode participar, e não só uma lista de convívios. [Já tem data pro casamento fora da missa?] Está marcado para dia 14 de março.

 

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"Eu sempre entendi que a comunicação deve gerar comunhão. E comunhão se faz com encontros, é o presencial, é o real"

 

Como está a situação da igrejinha velha? Ela está com problemas estruturais? É preocupante?

Padre Márcio: Preocupa pelo fato da própria igreja e outros prédios do entorno. Estamos com toda a parte de assessoria jurídica da arquidiocese entrando em conversa com a construtora para que se possa de alguma maneira não rever, porque não dá mais, mas ao menos minimizar os impactos sofridos. [Imóveis foram vendidos nas proximidades e vai mexer novamente no subsolo daquela região. Isso tudo está sendo acompanhado?] Tem sido acompanhado e é nossa preocupação. A igreja sempre foi uma instituição que preza por conservar os seus prédios e já cometemos equívocos terríveis. Não queremos cometer esses mesmos equívocos. Temos a missão também de ajudar a sociedade, de influenciar e de conscientizar sobre a história que se faz através da arquitetura, do entorno das igrejas e não só as igrejas. Os casarões, as casas no entorno da própria igrejinha da Imaculada, que estão inclusive com restauro, mas que também foram impactados de maneira muito abrupta... A igrejinha vai ficar durante o dia todo na sombra, isso tudo impacta. Não é só estrutural, mas uma igreja como aquela, construída com materiais que precisam respirar, precisam do sol, são materiais mais orgânicos, ela vai com mais facilidade mofar, carunchar, infiltrar... [Uma das contrapartidas da construtora era o restauro da igrejinha, isso não aconteceu?] Ainda não. Esperamos que honrem com esse compromisso. Essa é a nossa esperança e nossa fé. O diálogo está aberto e eu creio que chegaremos a um bom termo. Mas sabemos que quando tem custos tudo vai mais lentamente....

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"A nossa missão é essa: iluminar as consciências e não tomar partido"

 

No ano retrasado foram detectados problemas no forro, escadas de acesso às torres da Matriz, entre outros. Como está o processo de restauro?

Padre Márcio: Não temos nada confirmado. Está se fazendo um estudo para o projeto de restauração. O projeto de restauração, artístico, os vitrais, as pinturas internas, que exigem realmente um projeto muito apurado, e também alguns pontos estruturais. Num primeiro estudo prévio, nada que esteja estruturalmente em perigo. [Nem o teto?] Também não. [Parece que foi feito de material mais frágil?] Ele é de estuque, mas há algum tempo foram feitas as treliças todas com estrutura metálica, ele está todo suspenso. O madeirame original está todo lá, mas ele foi reforçado com estruturas metálicas acima. A igreja é uma senhora que exige mensalmente muitos custos, e tem muitas despesas que quem arca é a própria comunidade, é a paróquia. [Há parceria com a prefeitura?] A prefeitura, no ano passado, fez a parte de iluminação externa, que ficou muito bonita. Mas a própria iluminação precisa sempre estar mantendo. Estive com o prefeito, fui muito bem recebido, mas a minha primeira conversa foi de me apresentar e colocar à disposição como instituição.

 

"A minha primeira igreja foi uma lona de circo que eu ganhei"

 

O que o senhor acha dos padres que se tornaram celebridades ou influenciadores digitais? Como isso afeta a relação da Igreja com a sociedade?

Padre Márcio: Eu sempre entendi que a comunicação deve gerar comunhão. E comunhão se faz com encontros, é o presencial, é o real. Nós temos os nossos meios de comunicação e o nosso grande desejo, por isso sempre com os meios de comunicação, é levar as pessoas a se encontrarem. “Ah, basta eu ouvir a rádio, basta eu ler essa notícia... Basta eu assistir à missa na televisão...”. Não, não basta. É preciso que haja comunhão, é preciso que haja comunidade, e por isso é que a gente convida. Eu tenho 54 anos, não tenho tanta facilidade com as redes. O meu sacerdócio como padre começou no norte da ilha, em Canasvieiras, Jurerê. A minha primeira igreja foi uma lona de circo que eu ganhei. Na beira da praia, junto das dunas, depois vem o terreno, começamos a construção do santuário. Não acredito na comunicação que faz com que as pessoas se isolem.

Após o Papa Francisco, a igreja tem um líder menos popular. Como está atuação do Papa Leão 14?

Padre Márcio: Papa Leão é de uma saudável continuidade. Não imita o Papa Francisco, mas continua aquilo que a igreja tem como grande abertura: o Concílio Vaticano II. Vivemos em um período de grande tensão, principalmente linhas mais conservadoras, que são contrárias ao Vaticano II. O Papa Leão, agora, está se constituindo esse papa da unidade, das diversas expressões, mas sem ceder aos que são contrários ao espírito do Concílio Vaticano. Ele disse aos cardeais: a estrela guia da igreja é o Concílio Vaticano II que é a vivência mais pura do evangelho. A igreja já errou muito e nós queremos acertar mais. [Essa onda conservadora afeta a igreja?] Sim, principalmente nos aspectos que mais aparecem. Às vezes um rubricismo, que são as rubricas litúrgicas, um desejo de voltar àquilo que nunca viveram. Isso parece que, no mundo moderno, dar mais segurança ter as coisas mais pomposas, se dá muito valor às vestes, essas coisas todas...

 

"Não acredito na comunicação que faz com que as pessoas se isolem"

 

Há um crescimento no número de fiéis e igrejas evangélicas. Quais ações a Igreja Católica tem adotado para não perder público?

Padre Márcio: Precisamos ser aquilo que somos, católicos, com os braços abertos e acolhedores. Fico contente de não só ter mais gente na celebração e na liturgia, mas mais pessoas envolvidas com a igreja. Nós temos aqui um trabalho que acolhe moradores de rua, que dá alimento.... Foi interessante, ontem [segunda] já tinham mais pessoas fazendo esse serviço.

 

"Papa Leão é de uma saudável continuidade. Não imita o Papa Francisco, mas continua aquilo que a igreja tem como grande abertura: o Concílio Vaticano II"

 

A igreja evangélica mantém bancadas no parlamento para defender seus interesses. Como o senhor avalia essa ligação entre política e religião?

Padre Márcio: Se eu pudesse, eu queria dizer aos meus irmãos evangélicos, a quem eu admiro, não caiam nessa. Nós, católicos, já caímos. Nós, na história, já quisemos misturar tudo. Nós já quisemos ter o poder, misturar, tomar reis e ser reino... Não deu certo pra nós. Não vai dar certo. Queridos irmãos, não misturem púlpito, altar, com palanque. Não vai dar certo e faz mal para o evangelho. [Os fiéis estão cada vez mais radicais com a bipolarização política no Brasil. O senhor sente esse cerceamento, essa cobrança?] Os padres, a imensa maioria, sabe realmente dosar. A igreja no Brasil tem esse entendimento: formar a consciência, iluminar as consciências. A nossa missão é essa: iluminar as consciências e não tomar partido. Incentivamos que os nossos bons cristãos entrem no mundo da política, com seus bons princípios, com suas virtudes. Não transformar a Câmara Federal em um púlpito ou altar. Nós não podemos tornar nossos altares como se fosse um senado. O bom deputado não é aquele que vai lá no púlpito falar em nome do Senhor. Não! Lá ele, em nome do Senhor, sem precisar sequer às vezes citá-lo, ele vai fazer acontecer a caridade, o bem comum, a fraternidade e a solidariedade.

 

"Sempre busquei no sacerdócio sair da sacristia, descer do altar, ir onde as pessoas estão".

 



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