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As lamentações do pretérito imperfeito


De todos os tempos verbais da nossa língua, um, particularmente, é melancólico: o pretérito imperfeito do subjuntivo. A própria definição do tempo verbal é melancólica: expressar um fato passado não ocorrido, mas que, se verificado, traria uma consequência desejada.

Todas as vezes que as palavras ganham vida por meio de nossa fala, e, em meio a uma frase, um verbo acampa nesse tempo verbal, há já a certeza de uma lamentação. A questão é que alguns outros tempos verbais se apropriam da característica suprema do tempo do subjuntivo para roubar-lhe competência, como ocorre com seu homônimo do indicativo.

É claro que fora de tal tempo do subjuntivo as lamúrias vêm disfarçadas, correndo por canais obscuros da linguagem sem que ninguém note que, ali, roubaram a autoridade do tempo próprio das reclamações.

Num almoço durante a semana, alguém pronunciou:

- Hum, como é bom sentir o gosto maravilhoso da comida!

Levantei os olhos mirando o autor da frase com um sorriso. Naquele momento, levei alimento ao corpo e ao espírito, pois concordei que, realmente, não valorizamos algo tão essencial a nossa qualidade de vida e que apenas notamos quando nos falta: o paladar.

Ocorre que a frase posta com o verbo no infinitivo, apesar de sua singeleza, trouxe uma lamentação de fundo, com o verbo usurpando autoridade pertencente ao tempo do pretérito imperfeito, pois, disfarçadamente, ela me passou a sensação de que seu autor, em verdade, queria dizer: “Se eu tivesse prestado atenção, no passado, em quão bom é sentir o gosto do alimento, teria sido mais feliz”.

Talvez seja por isso que as pessoas, às vezes, expressam algo e são interpretadas de outra forma.

Seria culpa do tempo imperfeito?


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