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Sovinice ou lucidez


Fui presenteada com um sabonete líquido, francês, daquele tipo que se coloca no banheiro social e as visitas também se regalam, sentindo o perfume que permanece nas mãos, após cada lavagem. Uma delícia. Durou muito o sabonete líquido, cerca de seis meses, imagino, embora o movimento intenso do tal banheiro, localizado no coração da casa. Lá pelas tantas, contudo, acabou a alegria, já que nada dura pra sempre, nem o melhor sabonete. Mas, como a gente se acostuma rápido demais com tudo que é bom e depois tem dificuldade para abdicar dos gostos assumidos, ponderei que bem podia adquirir outro vidro, às minhas custas, e assim fiz.

O final do terceiro vidro _ após outro tempão _ me pegou numa daquelas crises de sovinice ou consciência social, em que a gente acha um absurdo qualquer gasto que extrapole um pouco, e tomei a importante decisão de voltar aos produtos nacionais, líquidos em tons lindos de verde ou laranja, em recipientes plásticos ou de vidro, adquiridos em ótimas lojas, tudo politicamente correto.

Comprei o primeiro frasco do sabonete, o segundo, o terceiro, e me dei conta de que a pretensa economia não correspondia ao tempo em que o produto era consumido, porque a abertura era propositalmente programada para fornecer muito mais líquido do que o necessário. Ao contrário do meu maravilhoso sabonete francês, que fornecia apenas o suficiente, ao se sentir pressionado. E assim, cheia de razão e sem culpa na consciência, voltei ao que me dava prazer.

Mas tornei a pensar no assunto e me conscientizar dos consumistas hábitos nacionais, quando observei o desperdício do shampoo, que me presenteia com quantidade bem maior que a necessária, precisando desperdiçar o excesso, ainda que tente pressioná-lo o menos possível.

E não é só o shampoo: o hidratante corporal também exagera na quantia, mal é colocado em posição vertical, e eu que pensava passá-lo só nos braços, por falta de tempo para fazer o serviço completo, termino me sentindo na obrigação de passá-lo no corpo todo, por essa mania de não desperdiçar, recebida de meu pai.

Ridículo, sei, assunto tão banal nem merecia uma crônica. Mas aí o adoçante preferido se encontra em falta no mercado, experimento outro e, ao primeiro esguicho, brigo com ele, pois a quantidade exagerada, impossível de controlar, estraga o meu café, momento de prazer.

Penso nessa tal sustentabilidade com que todos se dizem preocupados, no dinheiro suado de tantos trabalhadores, deslumbrados com a possibilidade de acesso a bens com que antes nem sonhavam, como todo tipo de cosméticos. Produtos diversos escorrem pelas mãos, desperdiçados, enquanto milhares de frascos plásticos são consumidos sem necessidade, pois as reposições prometidas, por ocasião da primeira compra, estão sempre em falta.

Na Rio+20, ocorrida em junho de 2012, no Rio de Janeiro, milhares de pessoas de diversos países se declararam comprometidas com o desenvolvimento social. E entre os muitos propósitos estabelecidos, consta o item “Dar preferência para a compra de matéria-prima de empresas que também sigam os princípios da responsabilidade ambiental”. Pena que essas empresas ainda sejam minoria, no país que se aventurou a sediar evento com pretensões tão significativas, e o consumidor se veja obrigado a fazer seus próprios testes. Pena que a benevolência natural do brasileiro, acostumado a ser passado para trás, propicie o receio de ser sovina ou chato, quando o sujeito deseja apenas não perder a lucidez.


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